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Caderno
Especial
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Timidez
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Histórias
de nikkeis que minimizaram essa característica de personalidade
com terapia e cursos
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Timidez não é doença, mas vira problema quando
impede a pessoa de ter uma vida normal
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(Texto: Kelly
Nagaoka/NB | Fotos: Divulgação)
Timidez. Uma
forma de reagir às emoções. Muitos nikkeis querem
ser mais desinibidos. Mas como deixar de ser tímido? As psicólogas
do Núcleo Vida, em São Paulo, Maria Lucia Camões
da Costa e Maria Ioko Otani, já atenderam diversos pais japoneses,
que, preocupados com a socialização de seus filhos, procuraram
desde cedo ajuda para eles. É importante que a família
esteja atenta. Se ela notar que a timidez está acarretando problemas,
é importante que seja feito um psicodiagnóstico para ajudar
a diferenciar a timidez de um quadro clínico mais sério,
alertam. Lucia e Ioko afirmam que timidez não é doença.
Mas vira um problema quando impede a pessoa de ter uma vida normal e ser
feliz.
Caso
a caso
A professora
E.A., que preferiu não se identificar, procurou psicoterapia para
ajudar a filha na época com 4 anos. A menina não se entrosava
na escola e dizia ter medo da professora. Apesar de em casa falar muito,
na escola ela era retraída e tinha medo de fazer barulho, com ameaça
de voltar ao maternal. A partir de então, minha filha começou
a ser tímida fora de casa. Após mais de um ano e meio
de terapia, ela passou a sentir-se mais segura, a fazer balé e,
dali adiante, ela deslanchou. Hoje, ela está com 29 anos, é
advogada e adora dançar, comemora E.
Outro caso
ilustrativo ocorreu em 1992. Quando era adolescente, Yuri Sato apresentava
diversos indícios de timidez: não ia na cantina da escola
nem para comprar lanche, tinha receio em pedir informações
na rua ou na aula. Ela tinha medo de se expor. Aos 13 anos, começou
a ter problemas na hora de dormir. Procurei um neurologista, mas não
teve resultado. Daí surgiu a idéia de procurar a terapia.
Quis descobrir as causas da dificuldade para dormir e da timidez dela,
pois soube de uma amiga tímida que ficou ótima, relembra
a mãe, Ana. Na época, foram dois anos de acompanhamento
psicológico. Hoje, Yuri tem 26 anos, trabalha como nutricionista
em dois lugares e namora. Para combater a timidez, a dica dela é
aprender a conviver. Tem muita coisa na vida que não conseguimos
resolver sozinhos e acredito que a terapia é válida para
qualquer um, analisa. Este ano, ela resolveu procurar novamente
terapia, mas por outros motivos: saber lidar com o trabalho, o namoro
e para se conhecer melhor. Desta vez, foram oito meses de aprendizado.
Mais uma trajetória
de superação é do filho da dona de casa Kioko (nome
fictício). As constantes faltas na escola e a introversão
levaram-na a procurar ajuda psicológica para o filho. A mãe
relembra que, aos 17 anos, ele não saía nem trazia os amigos
em casa. Também não namorava e não gostava de conversar
com os outros; não olhava as pessoas, inclusive parentes. Da primeira
à oitava série, não tinha amigos. Então, mudou
de escola e passou a ter três amigos que preserva até hoje.
Segundo Kioko, após alguns meses de terapia, o filho ficou mais
solto, escutava mais os pais e o relacionamento melhorou muito. Depois
da alta, tomou coragem e seguiu para o Japão, onde ficou por dois
anos. Atualmente, aos 23 anos, está menos acanhado, fez mais amigos
e retornou ao país de seus ancestrais.
Em muitos casos,
como os anteriormente citados, os pais também participaram da terapia
familiar, a fim de possibilitar uma melhor convivência em família.
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Falando
mais sobre timidez...
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Traço pode ser notado desde a infância |
Zashi: Qual
a diferença entre timidez e outros transtornos emocionais?
Lucia e Ioko: A timidez é uma característica de personalidade.
Assim como existem pessoas extrovertidas e sociáveis, também
existem aquelas que são introvertidas e tímidas. É
uma forma de reagir às emoções. Enquanto o extrovertido
externa suas emoções e se comunica com facilidade, o tímido
mantém suas emoções para si mesmo, tem dificuldade
em se aproximar das pessoas e interagir com elas. Existem pessoas que
são tímidas, mas lidam bem com isso, se aceitam e se adaptam.
Enquanto o extrovertido poderá ser um excelente vendedor, o tímido
poderá ser um excelente pesquisador. Os problemas começam
quando a timidez traz problemas ao indivíduo, impedindo-o de ter
uma vida normal e ser feliz.
Zashi: Quais
são as idades mais críticas para a timidez?
Lucia e Ioko: A timidez como característica de personalidade
já é possível ser percebida em crianças muito
pequenas (1 a 2 anos). Por exemplo, quando ela apresenta dificuldade em
ficar no colo de outras pessoas, não olha de frente e evita brincar
com outras crianças. Depois disso, nota-se, no início da
escolaridade, um comportamento mais nítido de inibição
no momento de se relacionar com outras crianças e adultos. Posteriormente,
no começo da adolescência, com as modificações
do próprio corpo e dos hormônios, ela irá atravessar
momentos difíceis de auto-aceitação que poderão
despertar a timidez. Mesmo em adultos, alguns eventos podem tornar a timidez
já existente num problema mais sério.
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O
tímido e a sociedade japonesa
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A pesquisadora
da cultura japonesa Lumi Toyoda ministra curso de desinibição,
mas afirma que continua uma pessoa tímida. Mesmo assim, não
nega convites de recepção, eventos, aniversários
e casamentos. Para a professora, todos são momentos de crescimento,
aprendizagem, de relacionamento com as pessoas e de descontração.
Lumi tem uma
história marcante de inibição. Em um Natal em família,
ela ficou tímida a ponto de passar mal na hora da entrega dos presentes
de um amigo secreto. Foi um público muito pequeno para tanta
tragédia. Ainda bem que hoje conto esta história rindo,
diverte-se.
Com quase 40
anos, para minimizar a introversão, Lumi matriculou-se na aula
de desinibição. Hoje, aos 61, lamenta não ter feito
isso antes. Talvez a minha juventude fosse repleta de alegrias.
Mas, por outro lado, não posso lamentar, pois tenho a plena consciência
do rol de amizades que cresce a cada dia, oportunidades que são
oferecidas e as portas que se abrem para mim, ressalta.
Como pesquisadora
da cultura japonesa, Lumi Toyoda aborda a sociedade nipônica para
descobrir as origens da introversão entre nikkeis. Confira:
O Japão
é um país repleto de regras de comportamento, com códigos
explícitos na vida familiar e social, e implícitos em locais
de trabalho e relacionamento profissional. Uma pessoa com falta destes
conhecimentos é considerada sem educação.
O japonês
carrega para si muitas obrigações, imposições
e obediência. E responde por qualquer ação negativa
de sua família e seu grupo. Por outro lado, o sucesso é
o resultado do esforço de todos, mesmo que este seja gera por apenas
uma pessoa.
Acredito que
existe um número tão elevado de suicídios e bebidas
no Japão por causa da cobrança sobrenatural pela sociedade,
empresa e até mesmo em família. Não é possível
mudar drasticamente o caráter de uma pessoa, além do mais
quando se trata de uma herança genética e cultura local.
Porém, é possível reeducar um comportamento para
melhorar relacionamentos, obter sucesso social e profissional.
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Parece,
mas não é
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A timidez é
um modo de ser. Características de personalidade não são
patologias, mas sim modos de lidar com as emoções. Veja
um pouco sobre alguns dos distúrbios que podem ser confundidos
com a timidez.
Fobia
social: Transtorno que apresenta crises de ansiedade na presença
de pessoas estranhas. São situações são evitadas
ou suportadas com temor, tais como medo de ser exposto à observação
atenta de outra pessoa.
Transtornos
de adaptação: Estado de sofrimento e de perturbação
emocional subjetivos, ocorrendo no curso de um período de adaptação
a uma mudança existencial importante ou a um acontecimento estressante.
Autismo
infantil: Distúrbio caracterizado por um desenvolvimento anormal
ou alterado, manifestado antes da idade de 3 anos.
Síndrome
de Asperger: Apresenta como sintomas dificuldade de interação
social e empatia, interpretação muito literal da linguagem,
entre outros.
Personalidade
esquizóide: Transtorno caracterizado por um retraimento dos contatos
sociais, afetivos ou outros. Tem preferência pela fantasia, atividades
solitárias e a reserva introspectiva.
Esquizofrenia:
Pode parecer uma timidez exagerada, mas se caracteriza por distorções
do pensamento, da percepção e de afetos inapropriados. Também
pode desencadear alucinações.
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