
Idoso japonês trabalha por mais tempo e depende menos de rendas
provenientes de aposentadoria ou pensão
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(Texto: Cinthia
Yumi/NB | Fotos: Divulgação)
No País,
os idosos correspondem a cerca de 15 milhões de brasileiros, ou
seja, quase 9% da população. Sessenta e quatro por cento
dos idosos brasileira são formados por mulheres, já que
elas vivem em média, oito anos a mais do que os homens. Segundo
dados do IBGE, 27% dos idosos são responsáveis por mais
de 90% do rendimento familiar. Considerando esses dados, o mundo desperta
atenção especial a essa faixa da população.
Direito
legal
Em 1º
de janeiro de 2004, os idosos passaram a contar com um estatuto que garante
direitos e estipula deveres para melhorar a vida de pessoas com mais de
60 anos no país.
Entre as principais
mudanças promovidas pelo estatuto, estão o direito ao trabalho
sem discriminação de idade; os descontos de ao menos 50%
nos ingressos para eventos artísticos, culturais, esportivos e
de lazer; a obrigatoriedade de os meios de comunicação destinarem
espaços e horários especiais voltados aos idosos, com informação
sobre o processo de envelhecimento; a gratuidade no transporte coletivo
urbano, para maiores de 65 anos, mediante apresentação de
documento; e a proibição de aumento de reajuste dos valores
dos planos de saúde para clientes com mais de 60 anos.
Na área
da saúde, outra conquista para o público da terceira idade
foi a distribuição gratuita de medicamentos por parte do
Poder Público.
Segundo o estatuto,
discriminação, abandono e maus- tratos contra o idoso devem
ter penalidades que variam de seis meses a três anos de detenção,
além de pagamento de multa. Entre os crimes contra idosos, ainda
estão listados a retenção de cartão magnético
de conta bancária relativa a benefícios e induzir o idoso
a outorgar procuração para fins de ordem de bens.
Proteção
Para cuidar
de questões mais graves, como homicídios e agressões
físicas, foram criadas as Delegacias de Polícia de Proteção
ao Idoso, por meio de um decreto de 2002. Hoje, o Brasil conta com dez
delegacias especializadas para tratar do assunto. (Veja a relação
completa no quadro da página 7, Delegacias dos Idosos em todo o
Brasil).
A primeira
Delegacia do Idoso foi criada em 2002, na região central de São
Paulo. No total, cerca de 17 mil ocorrências foram registradas até
o primeiro semestre de 2006. Segundo Oscar Gomes, delegado da 1ª
Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, os crimes
mais comuns são o abandono, os maus-tratos e a apropriação
de bens. A maioria dos problemas é de cunho social e não
criminal. De cada dez ocorrências, oito são problemas relativos
à orientação. É quando nós fazemos,
então, o encaminhamento aos órgãos competentes,
explica o delegado.
Gomes aponta
um problema que impede o desenrolar das investigações. Em
99% dos casos, o que acontece é que recebemos uma denúncia,
seja ela anônima ou não, e a vítima, no caso o idoso,
acaba não a confirmando. O idoso ainda tem dó ou receio
de denunciar o agressor, que, muitas vezes, pode ser seu filho ou alguém
da sua própria família, conta. Apesar de ver o estatuto
do idoso como um fator positivo na sociedade brasileira, o delegado tem
um olhar mais crítico. Na prática, o que acontece
é o seguinte: quando o idoso tem dinheiro, todo mundo quer cuidar
dele. Mas quando ele não tem, ninguém o quer, conclui.
No
Japão
Nessa
questão financeira, o pesquisador do IBGE e superintendente da
Escola Nacional de Ciências e Estatísticas (Ence), Kaizô
Beltrão, realizou um estudo comparativo entre a população
idosa do Japão e do Brasil. Publicado no ano passado pela Jetro
Japan External Trade Organization , órgão do
governo japonês que atua na promoção de comércio
exterior e de investimentos do Japão, o estudo comparou os dados
do Censo Brasileiro de 2000 e um Estudo da Universidade do Japão,
considerando algumas variáveis como sexo, idade, moradia, trabalho,
nível escolar, condições financeiras e estilo de
vida (urbano ou rural).
Entre as conclusões
do estudo realizado por ele, estão o fato de o idoso japonês
atuar por mais tempo no mercado de trabalho e de depender menos de rendas
provenientes de aposentadorias ou pensões para sobreviver. Concluí
que, no Japão, é comum as pessoas trabalharem até
a faixa dos 70 anos. Tanto homens quanto mulheres. Por lá, vi que
uma parcela significativa dos idosos ainda recebia um tipo de mesada dos
filhos. Acredito que seja uma questão cultural, de fato,
explica. Segundo ele, no Brasil, o quadro totalmente inverso causa preocupação,
devido ao déficit previdenciário gerado pelo grande número
de aposentados.
Cuidados
especiais
O Japão
é um país conhecido por contrastar o novo e o tradicional,
a parafernália hi-tech e os monumentos históricos. Mas,
quando o assunto é memória, os japoneses apresentam
um só espírito: o de preservação e respeito.
Lá, o Dia de Respeito aos Idosos é comemorado em 18 de setembro
e é comum naquela sociedade o cuidado especial com essa idosa.
Tanto que, por lá, há até agências especializadas
nos profissionais conhecidos como tsukisoi, que traduzindo para o português,
seria acompanhante.
Os tsukisois
trabalham em hospitais ou casas de repouso. O profissional dedica-se exclusivamente
a um idoso, oferecendo-lhe cuidados especiais que vão da higiene
pessoal, ao monitoramento dos horários de medicação
e às pequenas caminhadas. Geralmente, esse profissional trabalha
sete dias por semana e dorme no próprio local de trabalho.
O pré-requisito
básico para ser um tsukisoi é a paciência, pois cuidar
de idosos é mais desgastante do que de crianças. Eu sofri
muito, mas sempre pensava que meus pacientes poderiam ser meus próprios
avós e, assim, encontrei estímulo para me dedicar ao trabalho
com carinho, conta Sandra Iamamura, que trabalhou no Japão
como tsukisoi por cerca de dois anos.
Nesse período,
ela cuidou de dez pacientes, entre eles, alguns bem rebeldes. Eu
cuidei de uma senhora que teve um problema cerebral que a fez mudar de
personalidade por um tempo. No início, ela se comportava de maneira
violenta e agredia a própria filha e as enfermeiras. Não
aceitava a ajuda de ninguém. Mas, com o tempo, ela voltou ao normal
e mostrou-se uma mulher exemplar, relembra.
Na opinião
de Sandra, o Brasil ainda tem muito a aprender com o Japão no quesito
respeito aos idosos. O respeito e a preocupação com
o bem-estar dos idosos é muito marcante no Japão. Os japoneses
dão muito valor aos pais, o oyaku-koukou [dever filial] e, nas
relações sociais, sempre há espaço para a
valorização dos mais velhos. Também, com a longevidade
que existe por lá, é natural que se cultive os cuidados
com os mais velhos não é?, conclui.
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