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Nippo -
Você é um dos grandes nomes do jornalismo social. O que o
motivou a seguir essa área?
Leonardo Sakamoto - Eu sempre gostei dessa área, antes mesmo
da área social, antes mesmo de fazer jornalismo. Encaro o jornalismo
como um instrumento com grande potencial de mudança social. Não
gosto quando as pessoas dizem que a função do jornalismo
é simplesmente informar, até porque isso não existe.
Na prática, o nosso ato como jornalista é um ato político
forte, você faz escolha, você escolhe fontes, escolhe lados
a todo momento. A imparcialidade não existe e, compreendendo isso,
prefiro tomar partido daqueles que têm sido sistematicamente excluídos
da sociedade. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que escolhi o
jornalismo para mudar o mundo. E acredito, sim, que isso é possível.
Nippo- Como
surgiu a idéia de criar o Repórter Brasil e quais as principais
conquistas dessa ONG?
Sakamoto - A Repórter Brasil nasceu em 2001, pela necessidade
de um grupo de pessoas que queriam um novo caminho na imprensa. Não
falamos em grande imprensa, imprensa pequena, ou qualquer tipo de imprensa.
O veículo de mídia é um. Queríamos traçar
um caminho diferente, tanto é que temos parceiros na grande imprensa,
na mídia alternativa, na especializada. Não é preciso
estar fora da grande mídia para ser correto. Isso é ridículo.
Mesmo nos veículos mais conservadores, ou que defendem um lado
mais elitista, há trincheiras de colegas lá dentro que vão
tentar apontar um outro lado, colocar um outro ponto de vista e tentar
organizar uma espécie de resistência armada dentro da redação.
Eu já
trabalhei muito tempo em grandes veículos, em revistas, em agências
de notícias. E achava necessário criar uma coisa, um ser
novo, que pudesse dar vazão a todas as nossas ansiedades, nossas
necessidades, por um instrumento que fosse mais rápido, que fosse
inteiramente dedicado àquilo, e não apenas em tempo parcial.
Nós conseguimos vitórias na imprensa? Sim! Conseguimos emplacar
uma coisa ali, outra ali. Mas não o tempo inteiro.
A idéia
da Repórter Brasil surgiu para trazer à tona e pautar a
opinião pública sobre os flagrantes de desrespeito aos direitos
fundamentais que acontecem pelo Brasil. A gente priorizou, inicialmente,
as pequenas comunidades, que são exploradas, marginalizadas, e
como aquilo se reproduzia em escala nacional. Porque, na verdade, o problema
de uma pequena comunidade é existirem milhares iguais a ela. Isso
porque as formas de exploração dessas comunidades são
as mesmas. Temos parceria com veículos, estamos em portal na internet
e há pequenos veículos que publicam nosso material.
Como se vê
todos os dias flagrantes de desrespeito aos direitos humanos, você
fica pensando se o seu trabalho como jornalista é o suficiente.
Aí, chega-se àquela linha tênue entre a participação
e a observação. E eu acabei fazendo a opção
de atuar diretamente nessas comunidades. E para quem pergunta: Ah,
mas essa é sua função como jornalista?, a minha
resposta é: essa é minha função como ser humano.
Nippo -
Em meio a tantas reportagens sociais, imagino que você tenha se
emocionado diversas vezes. Dentre esses trabalhos, existe algum que considera
especial? Por quê?
Sakamoto - É complicado. Todas essas matérias mexem
de certa forma. Eu viajei bastante. E uma viagem que me sensibilizou muito
foi para a cobertura da guerra civil do Timor Leste. Eu fiquei mais de
um mês na ilha cobrindo uma resistência timorense que estava
lutando contra a Indonésia. Eu vi fome, morte, tudo isso. Eu me
sensibilizei muito, mais até do que com a Angola. O Timor foi um
ponto de reflexão muito forte. Desgraça a gente vê
em todos os pontos do Brasil, você vê pessoas reduzidas a
instrumentos de trabalho, com o trabalho escravo, vê famílias
no sertão nordestino, você vê muita coisa. Isso é
claro que mexe com a gente. Cada vez que você volta de uma viagem
dessas, fica estremecido, mas, no Timor, vi uma situação
extremamente complicada, de sujeição, de transformação
de muitas pessoas em animais durante o domínio da Indonésia.
Mas, ao mesmo tempo, vi uma população muito esperançosa.
Eles almejavam a liberdade, tinham a esperança de que eram capazes
de alcançar seus objetivos. Era um contraste muito forte e isso
mexeu comigo. Ao contrário de Angola, onde vi cenas tão
fortes quanto, mas a população não tinha mais esperança.
Essa coisa do contraste entre a dor e a esperança é algo
que mexe muito comigo. As coisas chocantes, as cenas de dor marcam, mas
você sabe explicar é falta de comida, é falta
de liberdade. Agora o que não se consegue explicar simplesmente
com palavras vai mexer com você por um longo prazo, vai lhe transformar.
É aquilo que você vai ficar se perguntando a todo momento
Por quê?. O mesmo material que alimentava os sonhos
dos timorenses é o material que alimenta a minha esperança
de mudar as coisas. Isso marca, essa contradição, essa impossibilidade
de responder uma pergunta é o que marca.
Nippo -
Além de repórter, você já atuou como professor.
Na sua opinião, qual dessas duas profissões oferece mais
oportunidades para desenvolver o espírito social nas pessoas e
por quê?
Sakamoto - As duas funções têm importância
muito parecida. Elas atuam no mesmo sentido de formação.
O jornalista que achar que não forma está cometendo um crime,
porque ele forma opinião. Não só opinião,
ele forma conceitos, ele baliza pensamentos. Então, as duas profissões
são igualmente importantes. O professor de jornalismo tem uma dupla
função. Ele vai acabar formando formadores.
Eu sou a favor da escola de jornalismo, mas não sou a favor da
obrigatoriedade do diploma. Como há um debate sobre a profissão
e o diploma, ninguém pensa que é uma coisa de meio termo.
É claro que o mercado é importante, mas não acho,
contudo, que a escola de jornalismo não forma. Ela forma, sim,
mas deveria ter um papel maior do que ela tem hoje. O debate sobre o diploma
acaba encobrindo tanto os defeitos do mercado, como os da faculdade. O
curso de jornalismo no Brasil precisa de um banho de realidade, de um
contato social mais forte, precisa pensar mais na sociedade, e não
apenas em si mesmo.
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