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Caderno Entrevista

Consulesa fala do Brasil e comunidade
Kikuko Nishibayashi: ”viver no Brasil é melhor do que eu imaginava”

Kikuko: “No Brasil, a diferença social de uma pessoa pobre e de uma rica é muito grande e grave”

(Texto: Kelsen Sato/NB | Fotos: Jin Yonezawa/NB)

Postura ereta, voz suave e sorriso tímido. A primeira vista, a consulesa Kikuko Nishibayashi é o esteriótipo da típica mulher japonesa. Mas, em poucos minutos de conversa, é fácil perceber que a longa vivência no exterior deixou o excesso de formalidade dos japoneses apenas nas aparências.

Em setembro de 2005, Kikuko chegou ao Brasil na companhia do atual cônsul-geral do Japão em São Paulo, Masuo Nishibayashi. A princípio, a distância que separa o Japão do Brasil e os muitos relatos de violência que aqui ocorrem preocuparam Kikuko. Mas, passada a primeira impressão, ela conta: “Sinceramente, hoje vejo que viver no Brasil é muito melhor do que eu imaginava.”

Há 15 anos, o casal vive longe do Japão. O Brasil é o sexto país da lista. Antes passaram pela Malásia, Suíça, Estados Unidos e Cingapura. “Antes de virmos para o Brasil, morávamos em Boston. Quando cheguei, as pessoas me chamavam de consulesa e não entendia o que isso significava. Mais tarde vim saber que no Brasil, tanto a esposa do cônsul, como a consulesa, recebem a mesma referência.”

A consulesa é natural de Otsu, capital da província de Shiga. Ela é graduada pela Universidade Católica Internacional de Tóquio e logo que se formou, começou a trabalhar na Fundação do Japão. Foi nessa época que conheceu o cônsul Massuo. “Temos um casal de gêmeos. Hoje, ambos têm 23 anos e vivem no Japão. Desde a nossa primeira viagem para o exterior, os nossos filhos sempre estiveram conosco. Quando morávamos em Nova York, o meu marido seria transferido para Cingapura, então eles preferiram ficar. Foi a partir daí que a família ficou separada”, explica.

Além dos cuidados com a segurança e as responsabilidades que se têm, quando é esposa do representante mais importante do Japão em São Paulo, Kikuko garante que sua vida é mais simples do que as pessoas imaginam. “Tenho as minhas responsabilidades, mas, no geral, consigo levar uma vida normal. Gosto de fazer compras no shopping e sair de carro sem um destino, como todo mundo.”

Nessa entrevista exclusiva ao NB, Kikuko fala sobre a sua vida pessoal, o seu papel como consulesa, sobre a comunidade nipo-brasileira e também a respeito dos preparativos do centenário da imigração japonesa no Brasil.

 
Entrevista

“Em todos os lugares pelos quais passamos, sempre fomos bem recebidos e acolhidos”

Nippo-Brasil: Qual foi a primeira reação da senhora ao saber que viria para o Brasil?
Kikuko Nishibayashi:
Como o meu marido já tinha trabalhado com assuntos relacionados a América Latina, nós já imaginávamos que ele assumiria o Consulado de algum país desse continente. Mas, a princípio, achamos que seria algum país de língua espanhola, por isso, de certa forma foi uma surpresa quando soubemos que viríamos para o Brasil. A primeira coisa que pensei foi, ‘o Brasil é bem longe’ (risos). A questão da violência também me preocupava. Mas, sinceramente, hoje vejo que viver no Brasil é bem melhor do que eu imaginava.

NB: Teve muita dificuldade para se adaptar aos costumes brasileiros?
KN:
Acho que a minha maior dificuldade tem sido a comunicação, por eu não falar a língua portuguesa. Aqui em casa, somente o nosso secretário, que é nikkei, fala bem a língua japonesa, os demais funcionários não são descendentes. No início, era ainda mais difícil me comunicar com os nossos empregados. Agora, estou estundando português com uma professora particular e, apesar de entender pouco, já consigo manter uma boa comunicação com eles. No geral, não posso dizer que sofri muito para me adaptar a vida aqui. As pessoas em minha volta são bastante compreensivas e sempre estão dispostas a ajudar.

NB: A falta de segurança no Brasil a assusta?
KN:
Eu já ouvi muitos casos de pessoas que tiveram problemas com a violência aqui no Brasil, mas eu mesma nunca estive em uma situação de risco ou em perigo. É claro que preciso tomar os cuidados necessários, por exemplo, nunca posso sair de casa sozinha. Mesmo quando vou fazer a minha caminhada pela manhã ou algumas compras, sempre tenho que estar na acompanhia de um segurança.


“No bairro da Liberdade, tive a sensação de estar no Japão dos tempos de criança”

NB: Quais seriam os maiores problemas e qualidades do País?
KN:
O que mais me chama a atenção é a diferença econômica que existe entre uma classe social e outra. A diferença de vida entre uma pessoa rica e uma pessoa pobre é enorme e muito grave. Em todos os países que estive até hoje, acredito que o Brasil é onde mais tenha percebido essa diferença social. Em relação às qualidades, em primeiro lugar, gosto muito do clima quente e da comida. Mas, o que mais admiro no Brasil é o respeito que as pessoas têm com relação a religião do outro. Os seguidores do islamismo, do catolicismo, do budismo, do judaísmo, todos convivem bem. Isso é impressionante, já que existem muitos países que estão em guerra, justamente, por causa da diferença religiosa.

NB: Como era a vida da senhora no Japão?
KN:
Sou formada pela Universidade Católica Internacional de Tóquio e antes de me casar, morei nos Estados Unidos, por um ano, na época da faculdade. Logo que me formei, fui trabalhar na Fundação do Japão, onde fiquei durante quatro anos. Foi nessa época que conheci o Massuo e nos casamos. Mas, mesmo depois de casada, continuei trabalhando. Só deixei o trabalho quando meus filhos nasceram.

NB: Como foi educar os filhos em países diferentes?
KN:
Apesar de toda a educação deles ter sido baseada na língua inglesa, fiz questão que eles aprendessem a língua japonesa também. Antes de ir para Nova York, nós voltamos uma vez para o Japão e ficamos lá durante quatro anos. Nessa ocasião eles puderam freqüentar a escola japonesa. De certa forma, acho que sempre tivemos muita sorte, porque em todos os lugares que moramos fomos bem acolhidos e conseguimos nos adaptar bem aos costumes do país. Mesmo morando e estudando em um país estrangeiro, não queria que as crianças perdessem a sua verdadeira identidade. Somos japoneses, pelo menos a língua materna eles deveriam saber. Existem pessoas que estão vivendo em outro país há tanto tempo, que acabam perdendo a sua nacionalidade. Isso eu não gostaria que acontecesse com eles. É claro que acho importante aprender sobre a cultura de um outro país. Já que tivemos a oportunidade de viver em tantos lugares interessantes, porque não aprender com os costumes desses lugares, seja por meio da música, desenho ou arte? Nós procuramos educar os nossos filhos dessa forma, espero ter conseguido (risos).

NB: Como define o papel da consulesa?
KN:
Eu sou consulesa porque sou esposa do cônsul e não porque conquistei esse cargo, por isso eu procuro ter um certo cuidado ao me relacionar com pessoas que estão ligadas ao trabalho do meu marido. Mas, ao mesmo tempo, sei que apesar de ser a esposa do cônsul, também sou uma representante do governo japonês em outro país, por isso sei que também tenho as minhas responsabilidades.

NB: Como é a vida da senhora no Brasil?
KN:
Aqui em casa acontecem várias reuniões de trabalho do Consulado e também jantares informais, então cuido da organização e recepção desses encontros. Mas, além disso, eu tenho uma vida bastante simples. Pela manhã, faço a minha caminhada e, como os nossos filhos já não moram mais conosco, dedico o meu tempo livre para estudar o português, ter aulas de piano e agora também estou praticando golfe. Gosto de fazer compras no shopping e sair de carro sem um destino, como todo mundo. Mas, como aqui eu não posso sair sozinha, eu procuro evitar lugares movimentados e onde tem muitas pessoas, porque fica uma situação bastante complicada. Mas, aqui perto consigo encontrar tudo que preciso e não é necessário me deslocar para muito longe. No Brasil, principalmente, em São Paulo, as pessoas são muito atenciosas comigo. Sou muito grata por toda a ajuda que tenho recebido e procuro até tomar cuidado para não acabar abusando da boa vontade dos outros.

NB: Como a senhora definiria a comunidade nipo-brasileira?
KN:
Antes de vir para o Brasil, a idéia que eu tinha da comunidade nipo-brasileira era de um grupo que, em quase 100 anos, tinha conseguido superar as dificuldades iniciais da imigração e que já estava bem entrosado dentro da sociedade brasileira. Eu lembro que logo que cheguei no Brasil, fui conhecer a Liberdade pela primeira vez, tive a sensação que tinha voltado para o Japão da época em que era criança. Essa experiência me trouxe boas lembranças. Agora, com um pouco mais de tempo no Brasil, vejo que os isseis trabalham para manter a tradição e a cultura japonesa viva. Por outro lado, entre os descendentes mais jovens, são poucos os que entendem a língua japonesa, por exemplo. Muitos nikkeis já estão casados com brasileiros e quase não participam das atividades da comunidade japonesa. Então, a mesma comunidade que busca manter a tradição japonesa, também busca o seu espaço na sociedade brasileira. Esse conflito de idéias, muitas vezes, acaba frustando a própria comunidade.

NB: O que a senhora espera do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil?
KN:
Os preparativos para as comemorações do Centenário é um exemplo desse conflito de pensamentos que cada geração tem, da qual falei. O desejo de cada grupo é diferente e por isso fica tão complicado chegar a uma única decisão. Como não vivi de perto a história da imigração no Brasil, não posso falar muita coisa, mas acredito que a vida dos imigrantes não deve ter sido fácil. Acho que a festa do Centenário deve ser, em primeiro lugar, em agradecimento a todas as dificuldades que os japoneses tiveram que superar para conseguirem se adaptar aos costumes da sociedade brasileira. Esse sentimento deveria ser maior que qualquer desejo pessoal. Eu espero de verdade que essa data seja um marco para os dois países e tudo ocorra bem, mas é difícil imaginar como serão as festividades do Centenário.

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