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Caderno Entrevista

Roger Cruz um super-herói da Marvel
Responsável pelos desenhos de Hulk, Homem-Aranha, X-Men, entre outros, Roger conta como chegou ao mercado americano de histórias em quadrinhos

Homem-Aranha finalizado: Roger manda para os EUA somente os desenhos, sem as cores

(Texto: Juliana Tieko Octavini/NB | Fotos: Luiz Fernando Pelegrini/RH Fotografias)

Qual garoto nunca sonhou em se tornar um desenhista de super-heróis? Pois aos 18 anos de idade, Rogério da Cruz Kuroda, 35, conseguiu realizar esse sonho e passou a desenhar profissionalmente para uma das maiores editoras de histórias em quadrinhos do mundo, a Marvel Comics, que publica personagens como X-Men, Hulk e Homem-Aranha.

Roger Cruz – como é conhecido mundialmente no mundo das HQs – foi um dos primeiros brasileiros a conquistar o mercado americano de quadrinhos. Desde que iniciou sua carreira, já passou por suas mãos uma legião de super-heróis; nada menos que Conan, Superman, Demolidor, Superboy, Motoqueiro Fantasma, Batman, Wolverine, além dos próprios X-Men, Hulk e Homem-Aranha (este último, personagem que está desenhando atualmente para a empresa americana).

Roger atribui tal feito ao fato de, quando criança, ficar em casa assistindo aos desenhos animados e praticando aquilo de que mais gostava – desenhar – em vez de jogar bola ou andar de bicicleta com os três irmãos mais novos.

Neto de japoneses por parte de pai, ele nunca teve muito contato com a cultura japonesa, já que não chegou a conhecer o pai. “Só tive mesmo algum contato com a minha avó, que era japonesa mesmo. A casa dela era um pouco o meu refúgio. Quando eu estava chateado com alguma coisa, eu corria para lá”, lembra.

Hoje, quando não está dando aulas na Quanta Academia de Artes – que possui duas unidades em São Paulo – ele está debruçado na prancheta de sua casa desenhando. E leva uma vida, digamos, de homem-morcego. Todos os dias, acorda por volta das 14 horas e é então que começa o seu dia. Entre um desenho e outro, gosta de brincar com seu cachorro, assistir à televisão e conversar com os amigos. E vai dormir somente às 5 ou 6 da manhã, depois de terminar pelo menos uma página de quadrinhos.

A seguir, ele conta como conseguiu conquistar o mercado americano de HQs e chegar ao lugar tão almejado por tantos garotos, além de dar dicas para aqueles que pretendem seguir sua trajetória. Confira a entrevista.

 
Entrevista

Nippo-Brasil: Como e quando começou sua carreira como desenhista profissional?
Roger Cruz:
Comecei com trabalhos pequenos, estágios em agências de publicidade. Depois, fiz um free lance para a Editora Abril, por meio do estúdio Artecomix (hoje, Art & Comix), onde eu fazia letramento. Lá, letrei V de Vingança, A Bandeira do Corvo e Liga da Justiça. Fiz histórias curtas para editoras pequenas aqui e isso me ajudou muito a desenvolver os traços e a adquirir velocidade.

NB: E como chegou até a Marvel?
RC: Foi em 1989, mais ou menos. Nessa época, eu trabalhava numa editora chamada Vidente. Fiquei sabendo que a Art & Comix estava fazendo trabalhos para os americanos e levei meu trabalho para fazer alguns testes. Fiz os testes e passei a trabalhar para editoras americanas. Meu primeiro trabalho lá foi para a Continuity Comics, uma edição de Armor. Já o meu segundo trabalho foi para a Marvel, onde fiz Motoqueiro Fantasma, depois Hulk e X-Men.

NB: Foi uma surpresa muito grande receber a notícia de que passaria a fazer desenhos para a Marvel?
RC: Na época, não deu tempo de pensar nisso. Não absorvia que aquilo que eu tinha conseguido naquele momento era um marco até mesmo para a Art & Comix, porque até então eles só trabalhavam com editoras não muito grandes no mercado americano. Na verdade, eu nem queria, naquele momento, fazer super-heróis. Queria fazer histórias undergrounds. Meu trabalho ia mais para uma linha do Laerte e do Angeli nesta época e mudou completamente. E eu fiquei marcado por isso. Eu tenho um trabalho mais voltado para a linha do humor, do cartoon, que as pessoas não conhecem, mas estou produzindo e vou mostrar isso no futuro.

NB: E como é feito o seu trabalho na Marvel?
RC:
Todo o trabalho antigamente era feito por telefone, fax, Fedex. O roteiro vinha por fax e era traduzido pelo meu agente. Hoje, continua sendo assim, só que tudo por e-mail. O roteiro vem por e-mail, eu monto as páginas, mando para aprovação por e-mail e, no final, o original eu mando por Fedex, para que o trabalho seja concluído lá e eles façam a arte final e as cores.

NB: Tem alguma inspiração na hora de desenhar os personagens?
RC:
Talvez a minha inspiração venha dos artistas que eu admiro, como o Frank Miller, do Sin City. Todos os dias, eu me surpreendo com uma influência nova, até em desenhos que recebo dos fãs. É interessante perceber como há tanta gente tentando fazer isso e saber que meu trabalho se sobressaiu nessa multidão toda – isso também me inspira.

NB: Você falou dos fãs. Como é lidar com eles?
RC:
Antes da internet, não tinha como ter contato com os fãs. Agora, posso conhecer todos eles e é quando eu percebo, por exemplo, que sou uma pessoa famosa. Até então, eu achava que estava em casa desenhando, mas realmente me tornei influência, assim como os artistas de que gosto se tornaram influência para mim. Isso me assusta um pouco, porque eu não imaginava que fosse acontecer. Eu tenho um site, tenho um blog e tento, na medida do possível, responder as perguntas deles.

NB: E como surgiu a idéia de abrir a Fábrica de Quadrinhos?
RC:
A Fábrica surgiu por volta de 99. Os sócios eram eu, o Marcelo (Campos), o (Octavio) Cariello, o (Rogério) Vilela e o Jotapê (Martins). Era um momento em que eu estava afastado dos quadrinhos americanos por opção mesmo. Eu já estava cansado de trabalhar com quadrinhos naquele momento. Queríamos fazer coisas diferentes. Pensávamos até em abrir um bar para quadrinistas, mas veio a idéia de montar uma escola. Começamos devagarzinho, com palestras, até mesmo para sentir se íamos ter procura ou não. Depois de um tempo, começou a acontecer mesmo. Montamos os cursos e cada um assumiu uma função. Paralelo a isso, pegávamos alguns trabalhos, como um clipe dos Titãs (da música Os Cegos do Castelo) e até a série animada As Aventuras da Tiazinha (da TV Bandeirantes). Crescíamos como estúdio e como escola também. O Jotapê foi o primeiro a sair e eu fui o segundo, porque queria voltar a fazer quadrinhos e não conseguia conciliar as duas coisas. Aí, houve a separação depois de uns cinco anos. O Marcelo e o Cariello montaram a Quanta e o Vilela continuou com a Fábrica, mas como estúdio, prestando serviços para agências de publicidade. E eu voltei para a Marvel.

NB: Como é o mercado de trabalho para aqueles que pretendem atuar nessa profissão?
RC:
Aqui no Brasil, para trabalhar com quadrinhos, é muito difícil. O mercado é muito pequeno e não há muito o que fazer. Conheço pouquíssimas editoras que trabalham com quadrinhos por aqui. E pagam muito mal, porque também não podem pagar mais, pois não têm quem compre a revista. É muito difícil lançar coisas que tenham a ver com o público brasileiro, porque competem com o quadrinho americano, que é muito barato. Para você desenhar histórias em quadrinhos, o lugar onde você realmente vai conseguir ganhar dinheiro e se realizar como desenhista é no mercado americano. Mas, para chegar até lá, também é difícil, porque eles são muito exigentes, precisa realmente ter qualidade, ser muito profissional.

NB: Muitos jovens, aliás, sonham com essa profissão, mas acabam abandonando-a justamente por não haver mercado de trabalho aqui.
RC:
Isso é na profissão de qualquer um. Não há espaço para todos. Eu vejo, por exemplo, que tem muita gente querendo desenhar quadrinhos, mas está na cara que nem todo mundo vai conseguir. Então, o que você tem que fazer? Seja o melhor, faça o melhor que você puder. Mas também não fique desapontado se você não fizer X-Men, porque há outras coisas para fazer. Um dia desses, recebi um e-mail de um menino dizendo para eu entrar no blog dele. Tinha só três desenhos e, no último, uma justificativa assim: “faz um mês que eu não desenho e resolvi fazer um desenho só para atualizar o meu blog”. Ele precisa praticar. Em compensação, entrei em outro que, em pouco tempo de blog, tinha mais de cem desenhos. Pode ser que ele não venha a desenhar um X-Men, mas ele está fazendo tudo certinho, está praticando. Não tem receita mágica melhor.

NB: E por que acredita que os quadrinhos brasileiros não fazem sucesso aqui no Brasil?
RC:
O que já me perguntei sobre isso... As pessoas consomem muito histórias em quadrinhos aqui no Brasil, a gente vê pelo número de vendas. Mas é muito difícil saber. Talvez não saibamos lidar com a história do mito do super-herói. Já os americanos acreditam nisso e a gente não. Achamos legal, mas não acreditamos de verdade. Imagine, aqui em São Paulo, um cara pulando de um prédio? Vão rir da cara dele. Pela nossa cultura, nós nunca vamos acreditar de verdade nisso. Aqui no Brasil, os quadrinhos que eu conheço que se deram bem foram aqueles que trabalham com humor. Tentaram fazer de tudo: Capitão Brasil, Capitão São Paulo e eu acho que por aí não é legal. Acho que o único que deu certo, mas que não chega a ser um super-herói, é o Vira-Lata, do Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia, mas que não alcança o grande público. É um personagem espírita que recebe uns poderes dos seus guias e sabe exatamente onde vai acontecer um crime. Ele age mais na periferia, nas favelas, é um personagem legal, mas não é um personagem que venderia como o Homem-Aranha.

NB: O trabalho de desenhistas brasileiros é bastante reconhecido no exterior. Prova disso são nomes como o seu, Marcelo Campos, Renato Guedes, Octavio Cariello, Ed Benes, Luke Ross, Jotapê Martins, Ivan Reis, entre outros. A que você atribui esse sucesso?
RC:
Como nós lemos muitas histórias em quadrinhos, conseqüentemente, quem quer desenhar acaba aprendendo bastante. Acho que isso vai acontecer em qualquer lugar onde se lê. Só que, de repente, em alguns países, eles acham isso impossível. Há mais de 15 anos, meu agente colocou uma pasta debaixo do braço e foi até os Estados Unidos tentar vender o nosso trabalho e deu certo. Eu escuto muita bobagem a respeito disso, que nós, brasileiros, recebemos menos, que a mão-de-obra é barata, mas é tudo bobagem. O Ivan Reis, por exemplo, é um cara que, nesse momento, é estrela no mercado americano, além de ganhar muito bem. É um dos principais desenhistas da DC Comics hoje em dia e está batendo em caras como o Jim Lee, por exemplo. Nós percebemos que, lá fora, no exterior, eles reconhecem o nosso talento, o nosso trabalho, não importa de onde você vem.
Ainda tem algum sonho profissional?
Tenho. Quero publicar os meus projetos, mostrar um outro lado do meu trabalho. São projetos de histórias em quadrinhos também. Um é de humor e se chama Gutigutz, que estou finalizando. Conta a história de duas mercenárias profissionais, mas que são muito femininas e estão sempre preocupadas com maquiagens, roupas, o que acaba atrapalhando um pouco o momento de elas cumprirem suas missões. Apesar de ter um caráter machista, as mulheres gostaram bastante. Já o outro vai contar um pouco sobre a minha adolescência, mas não chega a ser autobiográfico. Os dois para serem lançados aqui, que é o que eu também gostaria de fazer: lançar primeiro no Brasil, em português, e depois mandar para fora.

NB: Que outras dicas você dá para esses garotos que querem seguir essa carreira?
RC:
Pratiquem todo o tipo de desenho. Para desenhar histórias em quadrinhos você precisa saber desenhar de tudo, qualquer coisa. Conheça outras formas de expressão artística também. Veja como outros artistas que desenharam se expressaram. Outra dica é ser profissional. Saber que você tem um prazo para cumprir e ser educado também. Não mande um e-mail assim: “Ô cara, beleza?”. Às vezes, recebo uns e-mails enormes e sem pontuação. Você não pode fazer contato com um editor desse jeito. Se você gosta de usar gírias, tudo bem, mas use-as com seus amigos e saiba se portar com a situação também. E desenhar, desenhar muito. É o que eu digo: se você gosta mais de andar de bicicleta do que de desenhar, então vá andar de bicicleta, porque desenhista profissional você não vai ser. Foi o que aconteceu comigo. Eu aprendi a desenhar porque abri mão do futebol, da pipa, enfim. E eu desenho o tempo todo ainda. Quando não estou trabalhando, deito na cama para desenhar alguma coisa. Eu acho que qualquer profissão exige esse comprometimento.

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