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Caderno Entrevista

Helena Hirata – uma luta pela emancipação feminina
A socióloga afirma que deve haver, principalmente, uma divisão igualitária do trabalho doméstico entre homens e mulheres e diz que o poder continua concentrado em mãos masculinas

“A globalização foi, ao mesmo tempo, negativa e positiva para o trabalho feminino"

(Texto: Juliana Tieko Octavini/NB | Fotos: Arquivo Pessoal)

Todos os anos, o Dia Internacional da Mulher – celebrado em 8 de março – é lembrado, não como uma data para comemorar as conquistas femininas, mas para fazer uma reflexão sobre as condições de trabalho e de vida das mulheres, buscando uma sociedade mais justa e igualitária.

Mesmo com tantas conquistas, ainda não dá para comemorar. O mundo continua sendo dominado pelo poder masculino. Pelo menos é o que acredita a socióloga Helena Hirata, diretora do Laboratório de Ciências Humanas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França e professora da Universidade Paris VIII.

Autora do livro Uma Nova Divisão Sexual do Trabalho? – Um Olhar Voltado para a Empresa e a Sociedade (Editora Boitempo, 2002) e co-autora de As Novas Fronteiras da Desigualdade – Homens e Mulheres no Mercado de Trabalho (Editora Senac, 2003), Helena realizou pesquisas comparativas sobre o mercado de trabalho francês, japonês e brasileiro e defende a divisão igualitária dos trabalhos domésticos como forma de aproximar as mulheres dos centros de decisão masculinos.

Filha de Cecília Hirata e do ex-deputado estadual e federal João Sussumi Hirata – já falecido –, Helena nasceu na cidade de Kurume, província de Fukuoka, Japão, e veio para o Brasil com 5 anos. É irmã de Mari Hirata, conhecida chef de cozinha que mora no Japão.

Graduou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), onde também lecionou, mas, no início da década de 70, em plena ditadura militar, foi obrigada a deixar o País e partiu para a França, onde reside até hoje.

Doutora em Sociologia Política pela Universidade Paris VIII, a socióloga conversou com o Zashi por telefone e nos conta um pouco sobre suas linhas de pesquisa e a atual condição da mulher nos mercados de trabalho da França, do Japão e do Brasil. Confira trechos dessa conversa.

 

Nippo-Brasil - A Revolução Francesa, de 1789, foi o marco principal da emancipação feminina. Como a senhora analisa esse fato histórico?
Helena Hirata -
A Revolução Francesa falou que havia igualdade, fraternidade, liberdade, e uma série de reivindicações universalistas, mas, na realidade, as mulheres na França não conseguiram essa igualdade. As francesas só obtiveram o direito ao voto, por exemplo, em 1944, dez anos depois das brasileiras, inclusive.

NB - Então ela não foi tão revolucionária como a história toda alardeia.
Helena -
Absolutamente. Ela foi revolucionária num certo sentido para os homens, mas as mulheres continuaram numa situação bastante inferior, sobre todos os planos. Ela não representou uma libertação para as mulheres. Até hoje, há uma série de lutas femininas na França para que haja direitos iguais. Mas, mesmo hoje, há uma desigualdade salarial entre homens e mulheres numa ordem de 20% a 25% aqui na França. Se um homem, por exemplo, ganha mil euros, a mulher ganha 750 euros, em média. Essa porcentagem é maior no Brasil, na ordem de 35%; e maior ainda no Japão, que, até alguns anos atrás, era de 40% a 50%.

NB - E a que a senhora atribui essa disparidade?
Helena -
Acho que há uma construção social que vai no sentido de que existem homens que são diferentes de mulheres e que as mulheres são inferiores do ponto de vista social.

NB - A senhora acredita que a globalização tem contribuído para aumentar a discriminação e o preconceito contra as mulheres?
Helena -
A globalização foi, ao mesmo tempo, negativa e positiva para o trabalho feminino. Foi positiva porque houve um aumento muito grande no número de empregos, mas esses empregos são, em geral, miseráveis, precarizados, com pouca segurança. O lado negativo é que a globalização significou uma fraqueza do Estado, uma crise no estado do bem-estar social. Na Europa, por exemplo, nos países do norte, muitas coisas que eram o Estado que deveria fazer são feitas pelas mulheres, porque não há mais cobertura do Estado.

NB - Normalmente, o arquétipo da mulher independente é difundido nas classes média e alta. Isso significa que um dos principais fatores que possibilitam a emancipação feminina é a segurança financeira e até mesmo o acesso à educação?
Helena -
Acho que o igual acesso à educação e à autonomia financeira são muito importantes para que as mulheres possam almejar uma igualdade de tratamento, mas não é exatamente uma precondição. Não é porque você tem uma condição financeira e profissional melhor que terá, automaticamente, uma situação de igualdade entre homens e mulheres. Basta ver nas áreas de poder. As mulheres continuam, mesmo quando são muito educadas e possuem uma situação financeira e profissional muito positiva, não tendo acesso ao poder como os homens. Nas universidades, por exemplo, no nível mais alto de professores titulares, há muito mais homens do que mulheres, nos Estados e Ministérios, quantas mulheres há atualmente? Em geral, os postos de poder são os homens que conseguem deter sozinhos, embora as mulheres sejam cada vez mais educadas e, pode-se dizer que, no mundo inteiro, elas são mais diplomadas hoje do que os homens, praticamente em todos os níveis. Na França, as mulheres são mais diplomadas do que os homens no primário, no primeiro grau, no segundo grau e na universidade. No caso do Brasil, o diploma é em igual número no primeiro grau, mas a partir do segundo, as mulheres são mais diplomadas. Então, o fato de a mulher ser mais escolarizada não significa que ela tenha mais acesso ao poder ou as instâncias de tomadas de decisão.

NB - E no Japão, onde a submissão das mulheres perante os homens é mais latente, como é essa questão da inserção da mulher no mercado de trabalho?
Helena -
No Japão, é mais difícil as mulheres terem acesso ao mercado de trabalho, porque elas têm uma dificuldade muito maior de conciliar a vida profissional com a vida familiar. Lá, as normas em vigor dizem que é necessário que as mulheres sejam responsáveis pela educação dos filhos. Não se admite a idéia de que elas possam trabalhar enquanto os filhos ficam em creches ou em escolinhas. É muito menos admitido do que num país como a França, onde, desde o século passado, a norma dominante é de um tempo completo de trabalho. No caso do Japão, o tempo é parcial. Não se admite que mulheres que tenham filhos trabalhem em tempo completo e, se você está trabalhando em tempo parcial, você não consegue ter promoções, formação, uma carreira, etc., porque você só trabalha metade do tempo e só lhe dão tarefas bem desvalorizadas e pouco qualificadas.

NB - Há quem diga, inclusive, que a escassez de mulheres em cargos de comando seja devido à maternidade. A senhora concorda com isso?
Helena -
Não é que seja devido à maternidade, porque não existe um determinismo natural aí. Acho que o que existe é o fato de você ser considerada mãe e sem a possibilidade de conciliar a maternidade com o trabalho profissional. É uma questão de sociedade. Na sociedade japonesa, quem é mãe é considerada fundamentalmente mãe, e os outros trabalhos devem ser deixados para pessoas que não têm filhos ou para os homens, o que faz com que muitas mulheres atualmente não se casem nem tenham filhos para poder fazer o que gostam e continuar a trabalhar.

NB - Com o aumento no número de divórcios e de mães solteiras, muitas mulheres têm assumido o papel de pais e mães ao mesmo tempo, sendo obrigadas a trabalhar em dobro para sustentar a família. Como a senhora analisa essa mudança na estrutura familiar?
Helena -
Houve um aumento muito grande de mulheres chefes de família, sobretudo no Brasil nos últimos anos. Os dados que o Dieese divulgou em 8 de março do ano passado mostraram que houve um aumento muito grande principalmente no Nordeste, em torno de quase 30% no conjunto do Brasil. É uma cifra altíssima. A situação da chefia familiar, com tudo o que significa em termos de ônus econômicos, aumentou muito e, com isso, há uma dificuldade muito grande de inserção das mulheres no mercado de trabalho.

NB - Em seu livro Uma Nova Divisão Sexual do Trabalho? a senhora afirma que é necessário ter uma divisão igualitária das tarefas domésticas entre homens e mulheres. Por quê?
Helena -
Sim, deveria haver uma divisão mais igualitária de trabalho doméstico entre homens e mulheres porque, na realidade, para fazer um trabalho de criação, você precisa de um tempo para si, de reflexão sobre si mesmo, e acho que as mulheres, atualmente, com um trabalho doméstico e familiar simultâneos, não têm disponbilidade de tempo propícia para o trabalho criativo.

NB - A senhora acha que, de certo modo, as mulheres até dificultam a entrada dos homens nesse território doméstico?
Helena -
Até é possível, pelo fato de as mulheres terem apenas o trabalho doméstico e considerarem que ele é um pouco o seu território. Mas os homens também fazem de tudo para mostrar que não sabem fazer as tarefas domésticas como as mulheres. Então, pode-se dizer que os que resistem mais são os homens.

NB - A senhora não concorda que, quando se fala em emancipação feminina, está se aceitando, implicitamente, que a mulher, nos dias de hoje, situa-se de fato numa posição subalterna dentro da sociedade?
Helena -
Claro. Parte-se do pressuposto de que a mulher tem uma situação subalterna dentro da sociedade e, por isso, é necessário mudar essa situação e criar possibilidades e meios para a emancipação.

NB - E na sua opinião, qual foi a maior conquista adquirida pelas mulheres ao longo de toda a história da humanidade?
Helena -
Acho que a educação foi realmente muito importante, pois houve um momento em que as mulheres não tinham acesso à educação. Mesmo hoje, há países onde elas continuam analfabetas porque não têm esse acesso. Outra grande conquista foi a contracepção, a possibilidade de as mulheres poderem dispor do seu próprio corpo, dispor da possibilidade de escolher o momento de ter filhos.

NB - Cada vez mais surgem milhares de ONGs e entidades que lutam pelos direitos da mulher. A senhora acredita que o movimento feminista vem ganhando forças, ou já não é tão expressivo como fora alguns anos atrás?
Helena -
Na França, ele já foi mais forte. Quando houve legislações contra a contracepção e o aborto, o movimento feminista colocou cerca de 50 mil a 60 mil mulheres nas ruas. Hoje em dia, ele já não tem essa força. Pode-se dizer, então, que há um momento de crise e uma ofensiva de forças mais conservadoras. Mas, como em todos os movimentos sociais, há altos e baixos. No Brasil, por exemplo, eu acho que houve um aumento e uma constância no desenvolvimento do movimento feminista. E, hoje em dia, ele é bastante diverso e se desenvolve em vários domínios. Há muitas mulheres feministas tanto anônimas quanto intelectuais que trabalham sobre essa área. Podemos dizer que o Brasil está num bom momento do desenvolvimento feminista. Já no Japão, acho que elas têm lutado em várias frentes, inclusive para ter mais mulheres na política, no governo. Elas têm feito muitas denúncias em relação aos crimes de guerra, sobretudo na questão da prostituição. Mas acho que existe no Japão, de um lado, o movimento sindical pela igualdade profissional; e, de outro, o movimento de intelectuais feministas. Acho que, nos três países, os movimentos são diferentes.

NB - O que deve ser feito para combater de vez o preconceito e a discriminação enraizados em todo esse contexto histórico?
Helena -
Acho que movimentos coletivos ainda são soluções importantes, de reivindicações, de luta. De uma maneira geral, acho que essas lutas coletivas mostram que não são só as mulheres individualmente que têm esses problemas, mas que um conjunto de mulheres enfrenta esses obstáculos e, portanto, elas devem fazer parte desses problemas de maneira coletiva.

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