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Caderno Entrevista

Fábio Yassuda, o contador de “causos”
Quem tem mais de 50 anos vai lembrar daquele que foi o primeiro ministro descendente de japoneses no governo brasileiro

(Texto: Ricardo Mituti Jr./NB | Fotos: Luiz Fernando Pelegrini/RH Fotografias)

Oitenta e três anos e uma memória invejável. A facilidade com que reproduz diálogos travados há mais de três décadas faz de Fábio Riodi Yassuda um legítimo contador de causos. É pouco provável que as novas gerações saibam quem é ele. Entretanto, nikkeis que tenham pelo menos 50 anos e viviam no Brasil durante o regime militar devem se lembrar deste nome.

Homem forte da falida Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), Yassuda destacou-se como o primeiro ministro descendente de japoneses da história do País. Sua gestão, na pasta da Indústria e Comércio, durou pouco menos de quatro meses – entre 30 de outubro de 1969 e 23 de fevereiro de 1970, durante a presidência do general Emílio Garrastazu Médici –, tempo suficiente para que se tornasse personagem de livros escolares e abrisse caminho no Poder Executivo para outros três nipo-brasileiros. Depois dele, chegaram à Esplanada Shigueaki Ueki, ministro das Minas e Energia, entre 74 e 79, Seigo Tsuzuki, na Saúde, entre 89 e 90, e Luiz Gushiken, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica, entre janeiro de 2003 e julho de 2005.

Fábio nasceu em 30 de agosto de 1922, em Pindamonhangaba (SP), onde seu pai, o topógrafo Rioiti Yassuda, instalou-se, em meados da década de 10, levado por um amigo fazendeiro para mapear a região. Educado em escolas rurais, não tardou para apaixonar-se pela agricultura. Em 1939, o gosto pelo campo levou-o à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba (SP), para o curso de engenharia agrônoma, e, mais tarde, para a cooperativa de Cotia, em 1948, onde permaneceu como diretor por duas décadas, além de diretor-gerente e diretor-superintendente.

Em 1969, ainda durante a ditadura, Yassuda foi indicado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) para ocupar a secretaria de Abastecimento da prefeitura de São Paulo, na gestão Paulo Maluf. Pouco depois, foi o presidente Médici quem o convocou a “prestar serviços à revolução”, conforme lembra, como ministro da agricultura. Porém, a incompatibilidade entre o plano de governo do militar e os ideais do nikkei para o meio agrícola acabaram por colocá-lo à frente do Ministério da Indústria. “Na primeira semana, pedi demissão, mas o Médici ficou bravo comigo”, confessa. “Fiquei quatro meses e caí fora.”

Longe do governo, dedicou-se à iniciativa privada até 1976. Depois de anos de uma estafante rotina de compromissos nacionais e internacionais, Yassuda comprou um barco, que manteve ancorado em Paraty (RJ), e, por dez anos, serviu como moradia, e se deu ao luxo de viajar pela costa brasileira. “Eu já tinha conhecido o País todo”, diz ele, que é desquitado e cuja única filha que teve morreu em 1981.

Hoje, quase anônimo em São Paulo, onde, segundo ele, vive provisoriamente, o nikkei tem uma vida bem distinta daquela que sustentou nos tempos de ministro. “Mudei muito”, garante.

Em quase quatro horas de conversa com a reportagem do Zashi, Fábio Yassuda falou sobre as principais passagens de sua vida. Entre um cigarro e outro – fumou seis durante a entrevista –, avaliou sua gestão no ministério sem o menor sinal de autocompaixão: “Achei de média para medíocre.” Confira os principais trechos.



“O Brasil inaugurou uma coisa que não existia no mundo, que foi uma ditadura sem ditador. Todo ditador fica até morrer, ser deposto, enforcado... No Brasil, o ditador era trocado a cada cinco anos. Era um negócio esquisito”

Zashi: Como aconteceu o convite para se tornar ministro?
Fábio Yassuda:
Estava hospedado em um hotel no Rio de Janeiro quando, às 9h30, o telefonista da portaria liga em meu apartamento dizendo que um coronel queria conversar comigo. Desci e, chegando lá, esse coronel me pôs em um carro preto e pediu para que o soldado [que dirigia o veículo] tocasse para o Galeão [Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro]. O Galeão, naquela época, era [lugar de] preso político. Eu, então, brinquei: “Coronel, estou sendo preso?” Ele falou: “Não posso falar nada para o senhor. Só posso dizer que o senhor não está sendo preso.” Quando chegamos, estavam à minha espera o general Médici [Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República] e outros dez coronéis. O presidente disse: “Queria dizer para o senhor, logo de cara, pois estou com pouco tempo. Fui eleito presidente da República ontem à noite e estou formando meu governo.” Fez, então, uma cara formal e continuou: “Estou convidando o senhor para ser meu ministro da Agricultura.” E disse mais: “Senhor Fábio, sei que o senhor não gosta e não aceita cargo público e que foi forçado pelo prefeito Maluf [a assumir a secretaria de Abastecimento da prefeitura de São Paulo]. Aqui, quero dizer a mesma coisa: o senhor não pode recusar. O senhor está sendo convocado a prestar serviços à revolução.”

Zashi: Mas por que o senhor assumiu o ministério da Indústria, se havia sido chamado para a Agricultura?
Yassuda:
Ele queria priorizar o café, o cacau, a cana, os cereais e a parte animal, mas queria que eu também resolvesse os problemas do crédito agrícola, de uma política para o meio rural e do comércio no meio rural. As pessoas achavam que o ministério da agricultura era tudo isso, mas, na verdade, essa não era sua função. Café, por exemplo, era [responsabilidade do] Instituto do Café, ministério da Indústria e Comércio. Financiamento e ajuda do Banco do Brasil, [responsabilidade] do Ministério da Fazenda. Todo comércio era [responsabilidade] do Ministério do Comércio Exterior e Itamaraty. Política e meio rural eram do Ministério do Trabalho. Disse, então, que cada ministério tinha de fazer um meio rural.

Zashi: Ele gostou da idéia?
Yassuda:
Gostou, mas retrucou: “Puxa, esse ministério para o senhor, então, não pode funcionar.” Em seguida, fui convidado para um jantar com ele e mais quatro coronéis. Foi quando me disse: “Yassuda, conversei com os coronéis e eles acharam que o senhor está bom para assumir dois ministérios, o da Agricultura e o da Indústria e Comércio.” Respondi: “Presidente, de jeito nenhum”. Ele saiu, voltou e me perguntou qual dos dois ministérios eu escolheria. E complementou: “Na verdade, foi o SNI [Serviço Nacional de Informações] que preparou uma relação de 29 nomes para cada ministério. Todos esses coronéis escolheram três para cada pasta. Então, o senhor não deve [o convite] nem a mim. Os coronéis o escolheram pelo currículo.”

Zashi: O senhor ficou surpreso com o convite?
Yassuda:
Totalmente. Agora, quando cheguei lá, não era nada daquilo que eu queria. Na primeira semana, pedi demissão. O presidente Médici falou: “De jeito nenhum. Fica mal para o governo. Agüenta mais um pouco.” Tirei 20 mil [Cruzeiros Novos, moeda da época] do meu bolso para ficar quatro meses no ministério.


“Tentei muito, naquela época, por exemplo, incentivar as exportações. Briguei com muita gente, enfrentei os impostos”

Zashi: É por isso que o senhor ficou apenas quatro meses no cargo?
Yassuda:
É, porque comecei a criar problemas demais.

Zashi: O senhor concordava com o regime militar?
Yassuda:
Não, mas depois passei a concordar. É preciso entender o que foi a ditadura no País. O Brasil inaugurou uma coisa que não existia no mundo, que foi uma ditadura sem ditador. Todo ditador fica até morrer, ser deposto, enforcado, ou não é assim? No Brasil, era um sistema de ditadura onde o ditador era trocado a cada cinco anos. Era um negócio esquisito.

Zashi: O senhor foi vítima de campanhas contrárias à sua permanência no ministério?
Yassuda:
Lembra-se daquela deputada da UDN [União Democrática Nacional], Sandra Cavalcanti? Então, ela era muito minha amiga. Ela trabalhava em uma grande empresa de publicidade estrangeira, e, um dia, me convidou para almoçar. Falou: “Fábio, ia pedir para você não continuar duro em certas coisas, principalmente no que se refere aos seguros. Aquela coisa de fazer crescer o seguro nacional em detrimento aos estrangeiros.” Expliquei que eu queria dar base para as [empresas] nacionais crescerem, e ela continuou: “É que eu tenho uma encomenda para lhe esculhambar.” Falei a ela que não tinha medo, mas ela foi ainda mais longe: “Você não vai ter oportunidade. É muito bem-feita a campanha contra você”. E a coisa começou...

Zashi: E como eram essas campanhas?
Yassuda:
Muito bem-feitas. Eu jogava meu golfe. Saía notícia na imprensa: “Ministro Yassuda, muito simpático, jogando golfe”. Dava notícia na página social. Eu estava no golfe e isso não tinha nada demais. No entanto, davam [a informação] como se fosse um playboy disfarçado, só que não falava assim. Na outra página, davam “Greve na Ferroaço, em Vitória”. Ué, o ministro não está vendo isso? Teve um dia que apareceu uma [notícia], eu em um coquetel, no Yatch Clube. Apareço lá [nos jornais], tomando champanhota. [Na outra página], “Miséria nos canaviais de Pernambuco”. Você lendo assim, no mesmo jornal, “Miséria em Pernambuco” e o ministro do governo não faz nada? Como desgasta!

Zashi: Como se deu seu desligamento do cargo?
Yassuda:
Eu tinha um acordo com um rapaz chamado Vander Batalha, diretor do Instituto Brasileiro do Café (IBC) por mim indicado. O Vander, quando viu minha política de café, falou: “Muito bonita, estou de acordo, mas você não vai me agüentar no IBC com essa política.” Falei para ele que, se o presidente o demitisse, eu sairia junto. Um dia depois de sua nomeação para a diretoria do IBC, o presidente Médici me disse que não tinha condições de mantê-lo no cargo. Eu, então, disse a ele: “Presidente, eu saio junto”.

Zashi: Ter sido o primeiro nikkei a ocupar um ministério no Brasil é motivo de orgulho?
Yassuda:
Ah, sim! Mas foi motivo de orgulho eu ser ministro, independentemente de qualquer coisa. A colônia [nipo-brasileira] sentiu-se orgulhosa, e eu acho isso muito razoável.

Zashi: Quais foram seus verdadeiros amigos naquele período?
Yassuda:
O Andreazza [Mário David Andreazza], ministro dos Transportes, era muito meu amigo. Era o ministro mais importante da época. Ele, inclusive, veio em casa me procurar quando resolvi largar o ministério. Também admirava o Gibson [Mário Gibson Alves Barboza], ministro das Relações Exteriores.

Zashi: Qual a avaliação que o senhor faz de sua atuação no ministério?
Yassuda:
Achei de média para medíocre, porque o que eu queria fazer eu não fiz. Tentei muito, naquela época, por exemplo, incentivar as exportações. Briguei com muita gente, enfrentei os impostos, mas deu tudo errado.

Zashi: O que o senhor espera do futuro do Brasil?
Yassuda:
O Brasil só precisa de uma coisa: um bom governo. Parece que é muito, mas não é.

Zashi: Se hoje o senhor fosse ministro do Desenvolvimento, quais seriam suas estratégias para aproximar Brasil e Japão?
Yassuda:
Uma coisa puxa outra. Se você intensifica muito um grande relacionamento cultural, o comercial e o econômico completam. Nesse aspecto, Japão e Brasil têm muito a explorar.

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