-
-
-
-
-
-
-
-
|
Caderno
Entrevista
|
|
Renato
Nakaya, o rei do shoyu no Brasil
|
|
Sakura
completou 65 anos de atividades, sob o comando do caçula do fundador,
Suekichi Nakaya, abocanhando mais de 80% do mercado nacional do molho
de soja
|
|
(Texto:
Helder Horikawa/NB | Fotos: Luiz Fernando Pelegrini/RH Fotografias)
Sessenta e
cinco anos. Fazer uma empresa sobreviver por todo esse tempo, em um país
onde, a cada dez novos empreendimentos lançados anualmente, sete
fecham as suas portas antes de cinco anos de vida, segundo dados do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), parece
ser algo utópico. Mas, baseada em seriedade, responsabilidade,
respeito e disciplina, a Sakura Nakaya Alimentos Ltda. orgulha-se de chegar
à terceira idade na liderança do mercado. Especialmente
quando o assunto é molho de soja, o tradicional shoyu para os japoneses
e que tão bem foi aceito entre os brasileiros.
Chegar ao topo
com mais de 80% do mercado nacional no quesito shoyu não foi uma
tarefa fácil. Ainda mais para uma empresa familiar que tinha, a
princípio, a meta apenas de abastecer, no final da década
de 30, os pontos de secos e molhados da capital paulista que vendiam produtos
aos imigrantes japoneses. A Sakura cresceu. E muito. O fundador, Suekichi
Nakaya, faleceu em fevereiro de 1984, aos 76 anos. Desde então,
o comando da empresa está nas mãos de Renato Kenji Nakaya,
o caçula de três irmãos do casal Suekichi e Chiyoko
(a mãe faleceu em outubro de 96).
Com 61 anos
de idade, completados no dia 9 de setembro, Renato assumiu a presidência
da Sakura com olhos de grande empreendedor. Já ocupara, antes disso,
a superintendência da empresa em 1971. Teve uma época
que tivemos a idéia de parar com a empresa. O objetivo dos meus
pais era formar os filhos e nos preparar para enfrentar o mercado de trabalho,
confessa. Entre continuar com a Sakura e buscar um novo emprego, não
pensou duas vezes. Optou pela primeira.
O sucesso da
Sakura, hoje com uma gama de 270 produtos, não deixa a menor dúvida
de que Renato Nakaya acertou na escolha. O carro-chefe ainda é
o tradicional shoyu, criado em uma fórmula que mistura a soja e
o milho, algo sem igual no mercado. Mas também produz missô
(massa de soja), conservas, molhos para salada, coberturas, vinho e até
saquê.
Em
família
Diariamente,
Renato é um dos primeiros a chegar à matriz da Sakura, na
zona leste de São Paulo, e o último a sair. À exceção
de Priscilla, 30, que mora na Suécia, onde trabalha com pesquisa
na área econômica na Organização das Nações
Unidas, ele colocou os filhos Henry (29), Régis (27) e Melline
(24) no comando das empresas. A última, por exemplo, está
à frente da Kenko Ken Star, uma construtora iniciada pelo próprio
empresário em 1975. Régis, fisioterapeuta de formação,
avança na área de agrobusiness (desde 2004, a empresa cultiva
a própria soja em uma fazenda em Uberaba, Minas Gerais) e Henry
controla o Marketing da Sakura.
Bom empresário
e bom pai. Quando pode, faz questão de almoçar diariamente
com a mulher e os filhos. Além disso, os finais de semana são
dedicados à família.
O carinho que
tem com a família também é extensivo aos 300 funcionários
da empresa. Funcionários não, colaboradores,
costuma dizer. Nas quatro unidades da Sakura, em São Paulo, Boituva,
Presidente Prudente (SP) e Ouvidor (GO), os termos funcionário,
empregado e trabalhador foram abolidos. Não raramente Renato é
flagrado conversando de forma bem humorada com alguns deles. Graças
a Deus, temos bons colaboradores. Eles crescendo, a empresa também
cresce.
Crescimento
Nesse princípio
de colaborador cresce a empresa ganha, a Sakura solidificou-se no mercado.
Em nada lembra aquele pequeno empreendimento caseiro, ainda no bairro
do Brooklin, fundado por Suekichi Nakaya em 2 de outubro de 1940.
No processo
histórico da empresa, há um detalhe que poucos conhecem.
A Sakura Nakaya Alimentos surgiu com esse nome apenas em 1978, após
a fusão da S.Nakaya (de Suekichi Nakaya) e H.Nakaya (Hidekazu Nakaya,
que tinha a fábrica de shoyu Cereja), em Prudente. Não
havia cabimento empresas da mesma família estarem disputando espaço
no mesmo mercado, recorda Renato. Hidekazu é irmão
de Suekichi.
Histórias
à parte, a Sakura quer agora expandir sua atuação,
inclusive no mercado externo. As exportações, iniciadas
em 2000, representam hoje 5% do faturamento da empresa. A meta é
chegar, em um curto espaço de tempo, a 30%. Para isso, a fábrica
de Boituva passa por um processo de ampliação que, uma vez
finalizada, se tornará a maior de todas as quatro.
Também
a curto prazo, a Sakura espera diversificar sua linha de produtos, utilizando,
além das fábricas próprias, as 22 operações
terceirizadas, inclusive uma no Japão e outra nos Estados Unidos.
|
|
Nippo-Brasil
- No Brasil, segundo uma pesquisa do Sebrae, sete em cada dez empresas abertas
fecham as suas portas antes de completar cinco anos de funcionamento. O
empreendedor de hoje está despreparado para o mercado, ou os planos
econômicos simplesmente matam essas empresas, com uma
imensa carga tributária e poucos recursos de avanços?
Renato Nakaya - A carga tributária, a burocracia e toda a complexidade
do Custo Brasil impedem a sustentabilidade dos negócios. Empreendedores
temos aos montes e muitos estão preparados, mas são vitimados
pelo sistema, que serpenteia e cerceia o crescimento da maioria deles. O
dekassegui é um bom exemplo. Por isso, ele prefere ir ao Japão,
onde consegue fazer uma boa renda pelo trabalho desenvolvido.
NB - O senhor
diz que o dekassegui é um bom empreendedor, mas alguns especialistas
dizem que muitos desses brasileiros que retornam do Japão estão,
na verdade, despreparados para ministrar seus negócios.
Renato - Eu acredito que não, porque tudo está mudando.
Está ficando cada vez mais complexo e difícil abrir e manter
um negócio no Brasil. Há cinco ou dez anos, não tínhamos
tanta complexidade, especialmente na área tributária, como
temos hoje.
NB - Então,
comparativamente, o senhor, que está no comando de uma grande empresa
há mais de três décadas, pode dizer que era mais fácil
abrir uma empresa no passado do que nos dias de hoje?
Renato - Ah, sem dúvida. Não digo mais fácil,
mas mais prático. Havia uma perspectiva de sustentabilidade muito
maior do que os dias de hoje.
NB - O Brasil
mudou recentemente sua Lei de Falências. Isso vai facilitar a reestruturação
das empresas?
Renato - Acredito que sim, pois abre-se um pulmão a mais para
que essas empresas em dificuldade possam se reorganizar para retomar suas
atividades normalmente. Na teoria, a Lei das Falências é
muito bonita. Mas precisamos ver o funcionamento na prática.
NB - E o
que o senhor diz sobre a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, ainda
em discussão no Congresso?
Renato - Desconheço o conteúdo global desse projeto.
Mas, pelo que sei, é uma formatação para darmos uma
chance às pessoas empreendedoras que queiram um lugar ao sol.
NB - Para
uma empresa como a Sakura, que completa 65 anos neste mês, quais
os segredos de sucesso para se manter e continuar crescendo no mercado?
Renato - Seriedade, responsabilidade, respeito, disciplina e reciprocidade.
E o comprometimento com o ser humano. A nossa empresa fabrica alimentos
e a responsabilidade é muito grande.
NB - Durante
anos o Japão foi o principal parceiro do Brasil na Ásia.
Hoje, o posto é ocupado pela China, a principal força emergente
na economia mundial. É difícil lidar com os investidores
japoneses?
Renato - Não digo que é difícil. O Japão
é exemplo de trading. Os japoneses compram e vendem praticamente
de tudo. Essa experiência nós, brasileiros, precisamos desenvolvr
melhor. Temos que fazer mais a lição de casa. Precisamos
aprender e aperfeiçoar nossas maneiras de negociar com os japoneses.
Todas as parcerias necessitam de monitoramento constante. Também
não podemos esquecer que a China detém a maior massa populacional
do planeta e está mais próxima do Japão do que o
Brasil.
NB - Desde
99, o governo brasileiro discute com o japonês a abertura de uma
área de livre comércio entre os dois países. O senhor
acha que isso seria possível a curto e médio prazo?
Renato - É uma questão complexa. Todos os países
querem defender o seu peso na balança. Nós temos que estar
sempre em negociação. Os momentos que se passaram não
serão iguais aos próximos. Temos que nos adaptar para atender
às exigências. O Japão é muito assediado por
outros países. Por isso, temos que estar preparados e usar a inteligência
para adaptarmos a exigência deles com as nossas necessidades. É
preciso um planejamento não só de curto e médio,
mas de longo prazo também. Nada acontece da noite para o dia. É
preciso trabalho, como disse, sempre constante.
NB - E nessa
questão de livre comércio, o ministro do Desenvolvimento,
Luiz Fernando Furlan, esteve recentemente na China. No ano passado, brasileiros
e chineses fecharam importantes acordos em determinadas áreas.
Mas há muitos setores preocupados com essa invasão asiática
no Brasil. No setor alimentício, há algum temor com a chegada
de produtos daquele país?
Renato - Tudo é preocupante. A China tem uma força de
trabalho muito maior do que a nossa e tem um índice de potencialidade
produtiva maior do que o do Brasil. Nós ainda temos uma carga tributária
alta e difícil e tudo isso encarece e dificulta o nível
do Custo Brasil. Por isso, nós, do setor alimentício, entendemos
que a tradição, a cultura e o sabor de nossos produtos são
característicos, mas não podemos desconsiderar que os asiáticos
podem ajustar esses fatores, inclusive com o agravante dos preços
baixos.
NB - O Banco
Central baixou, recentemente, a taxa básica de juros de 19,75%
para 19,5%. Pouco para muitos especialistas, mas o ministro da Fazenda,
Antônio Palloci, disse que os juros vão continuar caindo.
Com essa pequena redução, já dá para prever
um cenário mais favorável na economia brasileira?
Renato - A redução da taxa de juros vai incrementar
a economia, sem dúvida. Para a empresa que necessita tomar dinheiro
de terceiros ou de instituições financeiras, tudo isso vai
pesar no custo de um produto. Mas é preciso a taxa cair ainda mais,
para aumentarmos a produtividade e, conseqüentemente, a nossa competitividade,
especialmente com o mercado externo. Se a tendência de queda for
atendida, o nosso cenário futuro poderá ser visto com mais
qualidade.
NB - A rota
de crescimento que o Brasil tem hoje, comprovado em números pela
própria balança comercial, era, para muitos, algo esperado.
Ou seja, não é mérito exclusivo do atual governo.
Renato - O crescimento era esperado, já sabemos. A farra política,
se fosse menor, e se o País tivesse uma governabilidade mais lúcida
e sensata, o povo acreditaria e produziria muito mais. O momento político
que vivemos é que assusta. Nós, empresários, vivemos
sobressaltos e um momento de muita insegurança.
NB - Mas,
na prática, qual governo tem se saído melhor: o de Fernando
Henrique ou de Lula?
Renato - Há mais de duas décadas estamos experimentando
e aguardando por melhores realizações. Não posso
dizer se um governo foi ou é melhor do que o outro, mas posso afirmar
que a qualidade de vida dos brasileiros melhorou bastante. Mas ainda temos
muito o que mudar.
NB - Recentemente,
o Brasil vendeu papéis brasileiros no mercado externo, com vencimentos
em 2016. Angariou, com as vendas, cerca de R$ 3,5 bilhões. É
sinal de que o Brasil, mesmo com os problemas internos políticos
e econômicos, ainda é a menina dos olhos do mercado externo?
Renato - O capital é muito volátil. Hoje, os investidores
não têm só o Brasil como seu target. Ele tem uma gama
de países onde pode investir. O Brasil tem sido apenas uma opção.
|
|
| Arquivo
- Entrevistas |
Maia Hirasawa
Novo talentos do meio musical. |
Leonardo Sakamoto
Defensor dos direitos humanos. |
Ruth Cardoso
Respeito pelos imigrantes japoneses. |
Marcos Tumura
Ator, cantor e bailarino. Marcos Tumura é praticamente
o espetáculo em pessoa. |
Kyoko Suzuki
História verídica de mãe japonesa inspirou
filme exibido na última Mostra Internacional de Cinema em São
Paulo. |
Marcelo Katsuki
Arquiteto, cozinheiro, artista, jornalista, DJ. Fica difícil
definir uma personalidade como a de Marcelo Katsuki. |
Cristina Rocha
Estudiosa do budismo e do zen, Cristina é uma das pesquisadoras
mais respeitadas do País. |
Sonia Ushiyama
Praticidade e visual fazem parte do vocabulário da estilista,
uma das pioneiras no ramo de brechós do Brasil. |
Ricardo Takahashi
O fisioterapeuta é muito conhecido no meio esportivo. |
DJ Wander Yukio
Conhecido por sua irreverência, o DJ Wander Yukio agita
a noite paulistana como ninguém |
Chef Carlos Ribeiro
É um dos fenômenos da culinária oriental
no Brasil |
Débora Tavares
A haicaísta é um dos destaques da vida literária
de São Paulo |
Fabiana Shizue
"Minhas ilustrações são delicadas,
femininas e, às vezes, minimalistas" |
Fabio Namatame
Figura importante nos bastidores de grandes espetáculos. |
Sérgio Yamasaki
Envolvido em produções de sucesso, como a propaganda
dos famosos limõezinhos da Pepsi e dos peixinhos
da H2OH! |
Marly Yajima Fagliari
Farmacêutica e empresária desenvolveu importantes trabalhos
na indústrias de cosméticos. |
Adam Sun
Jornalista e tradutor, trabalhou na China e desenvolveu importantes
trabalhos em grandes revistas. |
Yumi BBB 7
Eliminada do reality show, a modelo estuda propostas para apresentar
um programa no Brasil. |
Kikuko Nishibayashi
Consulesa fala do Brasil e comunidade |
Carlos Nakao
O primeiro nikkei a participar de "O Aprendiz" |
Roger Cruz
Responsável pelos desenhos de Hulk, Homem-Aranha, X-Men, entre
outros, Roger conta como chegou ao mercado americano de histórias
em quadrinhos |
Helena Hirata
Uma luta pela emancipação feminina |
Ken Yamazato
O engenheiro de pipas |
Mari Hirata
Paixão pela gastronomia |
Fábio Yassuda
O contador de causos |
Renato Nakaya
O rei do shoyu no Brasil |
Ivonice Satie
Uma bailarina na flor da idade |
Megumu Ishiguro
Avida por trás do animê |
Mariko Nakahira
Uma cantora sem fronteiras |
|
|