|
(Texto:
Kelsen Sato/NB | Fotos: Luiz Fernando Pelegrini/RH Fotografias)
Os primeiros
animês, como são conhecidos os desenhos animados do Japão,
chegaram no Brasil de forma bastante sutil. Mas, foram recebidos de forma
estrondosa. Os cartoons japoneses apresentam histórias
bem elaboradas e figuras que beiram a perfeição. Pode-se
dizer que a única característica que restou da antiga animação
foi apenas o desenho em si. Ainda que, o ocidente tenha descoberto o animê
há poucos anos, sem sombra de dúvida, foram eles os grandes
responsáveis por essa nova concepção de desenho animado
que existe em todo o mundo.
O animê
representa muito pouco da típica cultura milenar e, no entanto,
possui características inegáveis da tradição
japonesa. O meu trabalho é transmitir os costumes do Japão
em forma de desenho animado, diz Megumu Ishiguro, 58, um dos grandes
produtores de animação do Japão e presidente do estúdio
Doga Kobo.
Num primeiro
momento, o nome Meguru Ishiguro não soa muito familiar, mesmo para
quem é fanático por animê. No entanto, quando falamos
de desenhos como Pokemón, Hotaru no Haka - Túmulo dos Vagalumes,
Himitsu no Akko-chan e Ikkyu-san, fica mais fácil compreender a
enorme experiência desse profissional.
Em sua quarta
visita ao Brasil, o animador esteve divulgando o seu novo trabalho, o
longa Kahei no Umi. O filme foi exibido durante o último Festival
do Japão, em São Paulo, em uma pré-estréia
exclusiva. Nem mesmo nos cinemas japoneses o filme entrou em cartaz. Levei
quase três anos para concluir o Kahei no Umi. Nesse trabalho, eu
recebi um grande apoio do governo do Japão e por isso gostaria
que o filme fosse assistido pelo maior número de pessoas possíveis,
declara o produtor.
Megumu
Ishiguro já dedica 40 anos de sua vida ao universo do desenho animado.
Sinceramente, eu não imaginava que a animação
um dia pudesse se tornar algo tão conhecido no mundo. Hoje eu posso
dizer que sou animador e vivo disso, mas há alguns anos o trabalho
com animê não era considerado uma profissão no Japão,
conta ele.
Grande parte
dos animês que conquistaram espaço nas telas da televisão
japonesa, e hoje também no mundo inteiro, foram adaptações
de histórias que fizeram grande sucesso na sua versão em
mangá, histórias em quadrinhos. As animações
mais conhecidas no Brasil, como Dragon Ball Z e Os Cavaleiros do Zodíaco,
são exemplos claros desse fenômeno. É muito
difícil o desenhista de mangá trabalhar com aquilo que gosta.
São os editores que determinam quem será o personagem e
a história que ele deve criar. E, geralmente, o tema é escolhido
já pensando no lucro que ele poderá oferecer. Confesso que
eu não quero isso para mim. Eu procuro trabalhar com aquilo que
gosto, ainda prefiro a originalidade, afirma Ishiguro.
|
Nippo-Brasil
- Nesses 40 anos de profissão, o senhor acha que a característica
do animê mudou?
Megumu Ishiguro - O Japão mudou bastante nos últimos anos.
Assim como a indústria automobilística do país cresceu,
a comercialização do animê e mangá também
aumentou muito, principalmente para fora do Japão. Mas o jeito de
fazer animê, a criação das histórias, isso nunca
mudou. Quem trabalha com animação cria sempre o que gosta.
Mas também deve-se levar em conta a questão da visão
comercial. O universo do mangá funciona da seguinte forma: o profissional
não cria uma história sobre futebol porque ele gosta, mas
sim porque o seu editor determina a criação desse personagem.
Na animação também acontece isso.
NB - No
Brasil, o interesse por mangá e animê cresceu muito nos últimos
dez anos. Para o senhor, o que levou os ocidentais se identificarem tanto
com esses desenhos?
MI - Acho que a principal característica da animação
e do mangá é que as histórias são divertidas,
engraçadas e envolventes. Acredito que essa é base de todo
animê. Outro motivo seria o sucesso dos videogames. Por exemplo,
o Pokemón é um personagem criado com a intensão de
fazer sucesso. Na época, três grandes empresas trabalharam
em conjunto na criação do boneco e do marketing. É
diferente de criar um produto que se torna famoso porque o público
se identifica com ele.
NB - As
lutas e o excesso de violência que existem em muitos animês
não o preocupam?
MI - Eu quero fazer animês que não envolvam cenas de
luta e violência. Mas, o mundo da animação também
é movido por uma visão empresarial e capitalista. Infelizmente,
é exibido o que faz sucesso. Mesmo hoje no Japão os desenhos
mais famosos da TV são os que mostram lutas, por isso se eu quiser
produzir algo que vai contra esse padrão, terei que fazer isso
por conta própria, usando meu próprio dinheiro.
NB - Como
surgiu a idéia de produzir o filme Kahei no Umi?
MI - A idéia de produzir o filme surgiu de uma coincidência.
Por acaso eu encontrei com o autor da história e comentei que tinha
interesse em produzir um filme. Acho que é sempre importante dar
o primeiro passo, porque assim você consegue visualizar melhor todos
os próximos passos que você irá tomar depois. Esse
é o primeiro longa produzido exclusivamente pela minha empresa.
NB
- Pode-se dizer então que Kahei é o trabalho que o senhor
mais se orgulha?
MI - É claro que o Kahei está entre os meus preferidos,
mas eu tenho um carinho especial pelo personagem Ikkyu-san, dizem que
eu sou parecido com ele. É a animação que eu mais
gosto e gostaria de continuar trabalhando com essa característica.
NB - O senhor
chegou a trabalhar nos estúdios do diretor Hayao Miyazaki. Essa
experiência trouxe alguma influência para as suas produções?
MI - Eu acho que o Hayao Miyazaki tem um talento incomum, praticamente
um gênio. Eu admiro muito o trabalho dele, mas nunca pensei em imitar
os seus trabalhos. Eu fiz estágio na sua produtora, mas não
cheguei a trabalhar pessoalmente com o Miyazaki. No longa O Castelo Animado,
algumas pessoas que trabalham comigo colaboraram com esse projeto. Ele
enviou umas miniaturas do castelo animado, como forma de agradecimento,
para as pessoas que haviam colaborando com o filme. Mas eu não
ganhei nada. (risos)
NB - O que
é preciso para ser um grande desenhista? Na sua opinião,
quais são as características de um bom animador?
MI - A pessoa tem que ser esperta, atenta a tudo. Mas, de preferência
que ele se dedique a criar algo que goste, que ele se identifique. É
claro que se você está em busca de dinheiro, esse não
será o seu caminho. Fazer o que se gosta é muito mais difícil
e leva muito mais tempo, o que acaba não gerando riqueza. Por isso,
eu acredito que quem escolhe produzir o que gosta e leva mais tempo e
dificilmente será uma pessoa rica, mas provavelmente será
um bom desenhista de animação.
NB - No
Japão, o senhor tem contato com brasileiros?
MI - Teve um nikkei que fez estágio na minha produtora durante
um ano, o Makoto. Mas, nessas quatro vezes que eu vim para o Brasil, eu
pude ter um grande contato com muitos nikkeis. Eu acho que o trabalho
da animação tem muito da cultura japonesa, mas o Brasil
tem grandes chances de formar uma indústria de animação,
porque eu vejo muitos brasileiros com talento suficiente para isso.
NB - Muitos
filmes e até mesmo desenhos japoneses têm a característica
de não ter um final feliz. Por quê?
MI - Eu gosto de finais felizes. Mas, acho que isso depende de cada
obra. Existem trabalhos que necessitam de um final mais realista, que
não acabe em mil maravilhas. Mas, como espectador sem dúvida
eu prefiro os finais felizes.
NB - O senhor
teve a influência de alguém da família para seguir
a profissão na área de animê?
MI - Na minha família eu sou o único que trabalha com
animação. Como sou o caçula de quatro irmãos,
os meus pais acharam que não teria problema caso um dos filhos
fosse um yakuza da vida. Eu nasci em Nerima, em Tóquio. Pode-se
dizer que é a área onde está concentrado os maiores
estúdios de animação do Japão. Então,
desde bem pequeno, eu já me interessava por animê. Hoje penso
que se eu tivesse nascido em outra região, não teria seguido
essa profissão.
NB - Quando
o senhor não está envolvido com desenhos animados, como
o senhor gosta de ocupar o tempo?
MI - Essa é uma boa pergunta. Eu tenho quatro grandes paixões:
o animê, osobaya-san (quem prepara soba, massa feita a base de trigo
sarraceno), tai chi chuan e antiguidades. A minha vida é toda em
torno dessas quatro atividades. O curioso foi que a primeira vez que vim
ao Brasil foi para treinar tai chi chuan em São Paulo, porque o
mestre chinês mais famoso dessa arte vive aqui.
|