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Caderno
Entrevista
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Mariko
Nakahira: Uma cantora sem fronteiras
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Em
sua segunda apresentação no Brasil, Mariko traz para a nova
turnê um repertório totalmente diferente, composto de 91
canções
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(Texto:
Kelsen Sato/NB | Fotos: Luiz Fernando Pelegrini/RH Fotografias)
Para a música
envolver o ouvinte, não é necessário muito esforço,
basta deixar que a sensibilidade do intérprete toque fundo o seu
coração. Esse tem sido o segredo da cantora japonesa Mariko
Nakahira para encantar o público japonês e agora também
o brasileiro. Com um jeitinho maroto e muita simpatia, a cantora mostra
que, para conquistar fãs em outros continentes, a compreensão
do idioma torna-se apenas um detalhe.
Em sua segunda
apresentação no Brasil, Mariko traz para essa nova turnê
um repertório totalmente diferente e composto de 91 canções.
Se no ano passado a artista encantou a todos, mesmo sendo uma cantora
pouco conhecida no País, este ano muitas pessoas que já
se consideram suas fãs esperam com ansiedade a apresentação
musical.
A cantora revela
que o aguardado reencontro é recíproco e afirma que veio
preparada para os 11 shows que irá realizar durante sua passagem
pelo Brasil. Eu sabia que poucas pessoas conheciam o meu trabalho
aqui, mas ainda assim fui tão bem acolhida no ano passado, que
fiz questão de voltar e retribuir a força que recebi de
tantas pessoas, explica ela.
Durante toda
a sua carreira, Mariko compôs mais de 50 músicas e já
gravou dez CDs. O seu último lançamento foi em 2001, o single
Ai no Uta Canção do Amor, música que também
foi composta por ela. Para a turnê no Brasil, Mariko traz um repertório
bastante eclético, que inclui desde composições pessoais
e títulos bastante conhecidos da música japonesa, como também
irá interpretar canções internacionais em outros
seis idiomas: italiano, francês, espanhol, inglês, coreano
e, inclusive, português. Quando escuto uma música e
me identifico com ela, eu logo começo a cantá-la, mesmo
não compreendendo absolutamente nada do idioma. Muitos até
acham que eu falo todas essas línguas, mas eu apenas interpreto
as canções, revela a cantora.
Nascida em
1957, Mariko explica que, desde muito pequena, sempre teve enorme paixão
por música, mas foi aos 16 anos, durante o Campeonato Nacional
de Música Popular Japonesa, que ela teve a carreira artística
lançada profissionalmente. Na ocasião, Mariko venceu o tradicional
concurso que seleciona novos talentos da música japonesa.
No
entanto, por força do destino, seis meses após conquistar
o tão sonhado prêmio, a cantora sofreu um grave acidente
de carro e teve que se afastar da carreira artística durante longos
12 anos. Muitas pessoas nem sabem desse acidente. Não falo
sobre isso em minhas apresentações, porque eu tenho pavor
que todos me olhem com piedade. Quero a admiração ou a desaprovação
das pessoas apenas como resultado do trabalho que faço com a música
e jamais por causa dessa fatalidade.
Quem vê
Mariko cantando feliz da vida no palco não percebe, mas, em conseqüência
do acidente, ela mal consegue erguer o braço esquerdo. A cantora
explica que as dores são tantas que já fazem parte da sua
vida, mas, ainda assim, ela se sente muito grata em poder voltar a cantar.
As sessões de fisioterapia me ajudaram muito. Durante muitos
anos, passei por diversas sessões e, mesmo hoje, eu continuo fazendo
os exercícios todos os dias, salienta.
Segundo Mariko,
a decisão de parar de cantar não significava que ela poderia
ficar sem trabalho. Eu tinha que encontrar alguma ocupação
para me manter, então eu comecei a trabalhar nos bastidores da
TV, em shows musicais, como assistente de produção. Mais
tarde, eu abri uma produtora que realiza musicais em programas de TV e
também uma escola de música, em que dou aulas de canto.
De certa forma, eu nunca consegui me afastar completamente da música.
Quando não estava no palco eu estava nos bastidores, mas sempre
perto da música, recorda ela.
Há 10
anos, Mariko retornou aos palcos, durante um programa de música
que a sua própria produtora estava organizando. A ausência
de uma das cantoras que iria se apresentar fez com que Mariko entrasse
no palco para substituí-la. Eu achei que não voltaria
mais a fazer parte daquele meio, mas foi maravilhoso voltar a cantar para
as pessoas. Uma sensação tão boa, que eu não
quero me afastar jamais.
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Nippo-Brasil:
O que você espera dessa segunda turnê no Brasil?
Mariko Nakahira: O show deste ano eu encaro como um desafio. No ano
passado, eu me apresentei pela primeira vez no Brasil e, mesmo sendo uma
cantora pouco conhecida, os nipo-brasileiros me receberam com muito carinho.
Desta vez, muitas pessoas que já me assistiram estarão presentes
novamente, então eu gostaria de surpreender o público. Preparei
um novo repertório para essa temporada e quero transmitir esperança,
amor, sonhos a todos os que estiverem me assistindo. Quero mostrar a nova
fase da minha carreira e retribuir toda a força que eu recebi do
público brasileiro no ano passado.
NB: Quem
são os cantores que inspiram a sua música?
MN: Eu tenho uma enorme estima pela cantora Missora Hibari. Infelizmente,
não tive a oportunidade de conhecê-la melhor enquanto ela
era viva. Mas, como sua fã, tive o grande prazer de vê-la
em várias apresentações. Hoje, eu mantenho um contato
mais próximo com a família Hibari e também com os
seus fãs, porque a minha empresa foi a responsável pela
produção de um vídeo gravado em homenagem ao 7º
ano de falecimento da Missora. Ao longo de um ano inteiro, foram realizados
diversos eventos em homenagem a ela e, nessa ocasião, eu tive a
oportunidade de conhecer melhor a sua vida pessoal.
NB: Nesse
novo repertório, há uma canção que será
interpretada em português. Você conhece algum músico
brasileiro?
MN: Na verdade, eu gosto muito da música latina, mas não
conheço o trabalho de nenhum músico brasileiro. No ano passado,
eu cantei Garota de Ipanema e esse ano vou cantar Canção
de Orfeu. Tem uma música muito especial para mim, que foi produzida
por Chiquinha Gonzaga há muito tempo, chamada Lua Branca. O maestro
Sassa, antes de falecer, deixou-me a partitura dessa canção.
Eu pedi para que o senhor Hidenori Sakao traduzisse a letra dessa música
para o japonês, para que eu pudesse cantá-la em homenagem
ao mestre Sassa.
NB: A interrupção
da sua carreira artística por mais de dez anos foi devido a um
problema de saúde, ou houve outros motivos?
MN: Chega a ser até engraçado, mas eu já estive
envolvida em seis acidentes de carro. Em todos eles, foram os outros que
bateram na traseira do meu veículo. Acho que as pessoas devem sentir
muita atração pela minha traseira, ou melhor, pela traseira
do meu carro. Mas, no último acidente, eu acabei machucando o meu
braço e decidi me afastar da música. No fundo, eu sempre
achei que o mundo artístico não combinava comigo. Foi quando
eu abri uma produtora de shows e acabei me indentificando muito com o
trabalho dos bastidores de programa. Não posso negar que a sensação
ao retornar aos palcos foi maravilhosa, tanto que hoje eu tenho certeza
que, sem a música, eu não consigo mais viver.
NB: Nesse
longo período de pausa, houve muitas mudanças na sua forma
de cantar?
MN: Parece estranho eu dizer isso, mas o acidente trouxe um lado positivo
para a minha carreira. Se hoje eu consigo cantar músicas que exigem
um tom mais agudo da minha voz, tudo isso eu devo ao tratamento de fisioterapia.
Os exercícios que durante tantos anos eu fiz para aliviar a dor
do meu braço, ensinaram-me a respirar usando a força da
barriga, e não do pulmão; dessa forma, eu tenho muito mais
fôlego enquanto estou cantando.
NB: Existe
algo mais importante para você do que a música?
MN: A minha mãe é certamente o bem mais importante que
possuo na minha vida. Mas, além dela, a música é
a razão da minha vida e não existe nada mais importante
do que ela.
NB: Se você
pudesse fazer algo diferente, o que gostaria de mudar na sua vida?
MN: O meu sonho desde pequena sempre foi ser cantora e, por esse propósito,
eu dediquei a minha vida toda a me tornar uma boa profissional. Apesar
de tudo, hoje eu sei que eu consegui realizar esse sonho. Eu continuo
com a minha produtora e também dou aulas de música, ou seja,
toda a minha vida está envolvida com a música. Acho que
não tenho porque me arrepender de algo que fiz e também
não gostaria que os fatos na minha vida tivesse acontecido de forma
diferente. Estou bastante satisfeita com tudo que tenho.
NB: Mesmo
depois de tantos anos de carreira, o que você sente quando está
no palco?
MN: Ainda hoje eu sinto muita emoção ao entrar no palco.
Meu coração começa a palpitar mais forte, minhas
mãos ficam trêmulas e geladas. Eu tenho as minhas superstições
para me manter calma. Antes de começar um show, eu mantenho uma
foto da Missora Hibari sempre perto de mim e também costumo fazer
uma oração antes de cada apresentação.
NB: Durante
a apresentação, você costuma segurar algo na mão.
É algum tipo de amuleto da sorte?
MN: É o retrato do mestre Eiji Sassa. Ele foi para mim um pai
da música. O mestre Sassa teve uma participação muito
especial na minha carreira. No passado, quando eu vim para o Brasil, ele
me acompanhou durante toda a minha turnê, mas, logo que voltamos
para o Japão, após 45 dias, ele veio a falecer. Foi uma
perda muito difícil para mim, e, em maio deste ano, eu tive que
passar novamente pela mesma experiência, quando perdi o meu pai
biológico. Eu tento reverter todas essas minhas experiências
em força para continuar em frente e sempre dando o meu melhor,
porque aprendi que não adianta ficar lamentando as coisas que já
aconteceram.
NB: Existem
outras atividades que você gosta de fazer, quando está fora
dos palcos?
MN: Bem, por causa do meu braço, eu não posso praticar
atividades esportivas. Mas, mesmo quando tenho um tempinho livre, estou
sempre em companhia da música. Quando eu chego em casa ou mesmo
no carro, a primeira coisa que eu faço é ligar o aparelho
de som. Quando estou cozinhando, tomando banho e até na hora de
dormir ou eu estou cantando ou estou ouvindo música, mas, se ouço
música, logo me dá vontade de cantar. Eu realmente só
tenho cabeça para música. (risos)
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