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Caderno Cultura-Tradicional

Orquídeas

Existem atualmente mais de 1,8 mil gêneros
de orquídeas espalhados pelo mundo

(Texto: *Redação/NB | Fotos: Marcia Morimoto/Divulgação e Divulgação)

Não há quem não fique de boca aberta ao ver uma linda flor em sua frente. Ainda mais se ela for uma orquídea. Apreciar e cultivar estas flores viraram rotina na vida de milhares de orquidófilos - como são chamados os colecionadores de orquídeas. Sua beleza fez com que a planta virasse objeto de desejo e valor comercial, inclusive. Não é a toa que os japoneses são tão apaixonados por esta planta.

Existem atualmente mais de 1,8 mil gêneros de orquídeas espalhados pelo mundo. Cada gênero possui uma centena de espécies e calcula-se que hoje existam cerca de 35 mil espécies de todos os tamanhos, formas e cores.

Os aficionados pelas flores garantem que o cultivo de orquídeas funciona como uma terapia. Além de servir como uma distração, elas dinamizam os diálogos na família e anemizam o estresse diário. Os apaixonados chegam, inclusive, a fazer das orquídeas um grande negócio e até chegam a gastar uma boa grana com algumas mudas. Só para se ter uma idéia, há espécies que chegam a custar até R$ 3 mil. No Japão, há espécies que chegam a custar até US$ 30 mil.

O cultivo das orquídeas irá depender muito do habitat natural delas. Muitas só irão para frente se estiverem num local que se aproxime bastante de seu habitat natural”, conta Lúcia Morimoto, 43 anos, presidente da AOSP, que aprendeu no Japão a cultivar orquídeas.

*Com Vanessa Maeji/NB

 
História
Há inúmeras controvérsias sobre a verdadeira origem das orquídeas, mas há quem acredite que ela tenha surgido na Ásia. Uns dizem que essas plantas surgiram há 4 mil anos no Extremo Oriente. Mas também há referências à flor na obra Enquiry Into Plants (Pesquisas sobre Plantas), escrita por Teofrasto, um discípulo do filósofo Aristóteles, há cerca de 300 anos Antes de Cristo, na Grécia. Isto talvez explique o porquê dos gêneros e espécies de orquídeas receberem hoje nomes em latim ou grego clássicos. Essa nomenclatura permite que os orquidófilos do mundo todo possam conversar sobre a planta sem causar confusão de espécies.

Os gregos conheciam as orquídeas como “orchis” que, por sua vez, significa “testículo”. O nome tem lá suas razões. Eles atribuíam à orquídea influência sobre a virilidade. Para os gregos, a planta era semelhante ao testículo masculino e, por isso, acreditavam que ela fazia bem à esta parte do corpo. No Japão, o significado não é diferente. Lá, as orquídeas também simbolizam a beleza feminina, o amor e a sabedoria.

A arte sumi-ê, por exemplo, costuma associar a flor à simbologia dos “Quatro Nobres” (o bambu, a ameixeira, a orquídea e o crisântemo). Os mestres acreditavam que cada um desses elementos possuía um significado diferente, mas que, ao se juntarem todos, aparecia um maravilhoso conjunto de orientações que compõem a essência que um homem precisa ter para ser uma pessoa boa e justa, tanto para si como para a sociedade.

 
Influência nikkei no cultivo do Brasil
A Associação Orquidófila de São Paulo (AOSP) surgiu em 1967, fundada por imigrantes japoneses. O surgimento desta associação respondia, entre outras questões, à dificuldade que tinham de se comunicar na língua portuguesa.

Um dos objetivos de Futao Inoue, primeiro presidente da entidade, era semear orquídeas no mundo inteiro. “Uma semente de orquídea leva de 5 a 6 anos para se transformar numa planta adulta e nos oferecer uma formosa flor. Devemos também nos esforçar para crescermos juntos," disse.

Em 1968, aconteceu a primeira exposição da AOSP no Bunkyo de São Paulo. A partir de então, a AOSP, organiza a sua exposição, anualmente, neste mesmo local.

 

Cattleya

Miltoniopsis

Oncidium

Tipo de orquídeas

Lucia explica que há orquídeas que nascem na terra (terrestres) - como a Oncindium phymatochilum e a Sophronitis arizona, uma espécie nativa do Brasil -, nos troncos das árvores (epífitas) - como a Renanthera coccinea - ou nas rochas (rupículas) - como a Laelia flava. Algumas são originárias de regiões frias que necessitam de menos água para sobreviver - como é o caso das Miltônias e do Cymbidium - e outras originárias de regiões mais quentes que precisam ser regadas com mais freqüência - como as Cattleyas.

De acordo com a espécie, a floração pode variar de 1 a 60 dias. Na média, uma orquídea chega a florir uma vez ao ano, mas há diversos fatores que podem influenciar no surgimento das flores, como o clima, a temperatura e a luminosidade. Lúcia Morimoto diz ainda que a primeira flor que vem em mente quando se fala em orquídeas é a Cattleya. Porém, não é a mais procurada pelos orquidófilos.

 
Dicas de cultivo:
• Vasos: Não devem ser grandes nem pequenos. É importante que as plantas de regiões frias sejam plantadas em vasos de barro com furos no fundo, para não reter água. Já as demais, devem ser plantadas em vasos de plástico que retêm água e umidade.

• Luz: É essencial. O ideal é manter as plantas sob uma tela. Assim, elas receberão claridade suficiente para realizar sua função vital, que é a fotossíntese. Se as folhas estiverem com cor verde garrafa, é sinal de que precisam de mais luz. Se estiverem com uma cor amarelada, estão com excesso de luz.

• Ventilação: As orquídeas normalmente crescem em local bem ventilados.

• Rega: Se a planta estiver num vaso de xaxim em pó, ela pode ser regada uma vez por semana. Se estiver plantada em piaçaba ou casca de madeira, a rega deve ser diária.

• Pragas e doenças: Falta de arejamento e de iluminação podem ocasionar o aparecimento de pulgões e cochonilhas (parecem pó branco) que podem ser eliminados por catação manual ou com uso de uma escova de dentes molhada com caldo de fumo.

• Plantar e replantar: Só devem ser feitos quando a planta estiver emitindo raízes novas, o que se percebe pelas pontinhas verdes nas extremidades das raízes, não importando a época do ano.

 
Relato de cultivadores e admiradores

"Cultivo há meio século. Quando tinha 11 anos, entrei em um dos melhores colégios de São Paulo. Como prêmio, ganhei algo que achei que fosse uma batata. Meus pais disseram que aquilo era uma orquídea e que dar uma haste seria caro demais. Só naquela batata ele pagou um salário mínimo, que na época valia muito mais. Dali a dois anos, vi a primeira haste florindo e aquilo foi o estopim para o meu interesse aumentar. Em 2000, fizeram uma pesquisa no Japão, que mostrou que existem mais de 1 milhão de orquidófilos lá e só 5 mil no Brasil. Achei um disparate muito grande. Mas agora parece que isso está revertendo, que está diminuindo no Japão e aqui aumentando. Em 2002, publiquei um livro pela Associação. Ela já tinha publicado um livro sobre o assunto antes, que não chegou a vender mil exemplares. Por isso, ela queria poucos exemplares do meu, porque achava que não iria vender. Continuei insistindo e acabei conseguindo uma tiragem de 5 mil exemplares. Chegou na 2ª edição, com mais 5 mil exemplares, que foram vendidos em um ano, e agora está na 3ª edição. Isso mostra que tem crescido. Inclusive, revistas especializadas, parece que tem quatro ou cinco hoje. Existem muitos tipos de orquídeas que dá para adaptar mais fácil, como a Cattleya e Dendrobium. O fator fundamental é manter a umidade necessária. Muita gente perde planta porque esquece de molhar. É proibido deixar a planta sem umidade. Já tentei contar duas vezes quantas orquídeas tenho, mas parei no meio do caminho. É algo em torno de 2 mil. Não tenho preferência definida por nenhuma espécie, gosto de muitos tipos, como Cattleya, Oncindium e Dendrobium".
Denitiro Watanabe, 70 anos, físico aposentado e autor de "Orquídeas – Manual de Cultivo"


"Há seis anos, vi num jornal sobre um curso de orquídeas. Fiz e gostei bastante. A partir daí, procurei outras especializações e comecei a participar de exposições. Foi quando comecei a ir na Associação. O pessoal incentiva bastante, dá dicas. Quando trabalhava, só ganhava as plantas e me perguntava como cuidar. Deixava a planta em um canto e ela acabava morrendo. Começaram a me ensinar e eu comecei a querer aprender. E passei a adorar! O interesse em orquídea [no Brasil] é crescente. Quando comecei a cuidar, o pessoal já gostava. Agora a coisa cresceu muito, tem muita coisa diferente, muita coisa importada entrando. Antes era muito elitizado, era para um grupo restrito, o pessoal rico. Começaram a entrar laboratórios e vender mais por preços mais acessíveis. Hoje tenho 3 mil orquídeas na minha estufa. Fico o dia inteiro e às vezes não dou conta. Todo dia venho na minha chácara e até perco a hora. Gosto de uma que abre mais em junho, julho, a Cattleya walkeriana. Tem algumas espécies cruzadas que abrem mais de uma vez por ano, mas não acho tão bonitas. Essa que gosto é muito cheirosa, e olha que não gosto de perfume! Você vai definindo seu gosto e procurar ter uma planta de acordo com o que pode cuidar e com o tempo que tem pra cuidar. Para quem está começando, não é bom acumular muita planta. Vá em exposição, que tem palestras gratuitas, com orientação para plantar, regar, onde colocar, como conservar. Não é trabalhoso, mas tem detalhes: não pode deixar encharcada, você deve adubar a planta, deixá-la em local iluminado e ventilado. Enquanto estiver florida, pode deixar em qualquer lugar. Quando já não estiver, não pode deixar no sol".
Elza Kawagoe, 51 anos, aposentada


“Coleciono pouca coisa, planto mais orquídea de ornamentação. Quando estava em Piracicaba, no Centro de Energia Nuclear de Agricultura, orientava um mestrando da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz). E ele tratava da parte de orquídea do Esalq. Ganhava alguns exemplares e foi assim que começou, há 15 anos. Quando vim pra São Paulo, trouxe as plantas e conheci a associação. Tenho de 10 a 15 mil orquídeas. A maioria é espécie para decoração, como a Miltonia. Ela abre mais vezes, não tem época definida, a partir de setembro, outubro, e é híbrida. As espécies favoritas são a Cattleya valkeriana e a Sophonites coccinea. É preciso conhecer bem em que condições na natureza determinada planta dá e fazer o possível para ter essas condições na estufa. Normalmente, a planta se adapta um pouco ao ambiente. Antigamente, o pessoal arrancava do mato e, como não sabiam cultivar, 90% morriam".
Eiichi Matsui, 76 anos, pesquisador aposentado

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