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Caderno Cultura-Tradicional

A milenar arte da caligrafia

Ideogramas japoneses foram herdados dos chineses, criados há cerca de 3,3 mil anos

O shodô, como muitos já conhecem, é uma das grandes artes milenares desenvolvidas no Oriente na qual o registro dos ideogramas expressam muito mais do que simples palavras. Utilizando-se de um fude – pincel japonês cujas cerdas são feitas de penugem de animais como carneiro e cavalo – umedecido no sumi, tinta à base de carvão, o artista desliza sobre o papel japonês sentimentos e impressões que deseja transmitir, sejam eles por meio de um único ideograma, de um poema, ou até mesmo de cartas.

Como sabemos, os ideogramas japoneses foram herdados dos chineses, que os inventaram há cerca de 3,3 mil anos, tendo os primeiros estilos padronizados surgido em 229 d.C. Em 221 a.C., o primeiro imperador da Dinastia Ch’in unificou a China e estabeleceu pesos, medidas e letras padronizadas. Estes caracteres, conhecidos em japonês como tensho, seguem padrões mais rígidos, se comparados a outros estilos: a largura dos traços é semelhante e o formato dos ideogramas é retangular. Embora o estilo tensho fosse oficial na Dinastia Ch’in, devido ao seu grande número de traços, foi criado um novo estilo mais simplificado e com regras mais flexíveis e estabeleceu-se o estilo reisho, que teve seu ápice no século I d.C.

Reisho, por sua vez, foi-se transformando em três novas formas de escrita: kaisho, gyôsho e sôsho. A kaisho constitui-se por formas definidas e firmes, quase didáticas. Sendo, por este motivo, o primeiro estilo ensinado a um aluno de shodô. Se, por um lado, o kaisho é definido e claro, o sôsho é corrido e livre. Devido a essa liberdade, é um estilo veloz, o que resulta muitas vezes numa leitura difícil, pois alguns traços são abreviados, prezando-se a leveza e a expressão. Entre um estilo e outro, encontra-se o gyôsho, que une a leveza e a fluidez do sôsho, com a legibilidade e a uniformidade do kaisho. Assim, podemos dizer que o kaisho é um estilo “estático”; o gyôsho uma “caminhada rápida”; e o sôsho uma “corrida”.

Devemos referir aqui também o man’yô-gana, uma forma antiga de kana, que utiliza ideogramas chineses para representar os sons do japonês. Não se pode afirmar com precisão sua data de criação, embora possamos atestar seu uso por volta do século VI. Muitos dos ideogramas utilizados no man’yô-gana deram origem aos fonemas japoneses hiragana e katakana. O hiragana foi desenvolvido a partir de ideogramas escritos no estilo sôsho, enquanto o katakana foi baseado em partes retiradas do man’yô-gana adaptadas por monges budistas para facilitar na leitura dos ideogramas.

A beleza do kana se dá pela distribuição da escrita, com a alternância no comprimento das linhas e espaços vazios. Não são, normalmente, grafados no papel branco, mas no colorido, muitas vezes luxuosamente decorado, tentando expressar a essência da cultura Yamato e se distanciar do shodô da China.


Colaboração: Julia Toffoli e Priscila Yumi Matsue
Revisão: Prof. Dr. Koichi Mori

Crédito: Bolsistas de Toyama 2005/2006, curso de Língua e Literatura Japonesa, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (USP). Coordenação: Koichi Mori. Assessoria técnica: Patrícia Izumi, Centro de Estudos Japoneses (USP). Tel.: (11) 3091-2426 (secretaria)/3091-2423 (biblioteca) Site: www.fflch.usp.br/dlo/cejap

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