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Caderno Cultura-Tradicional

Animais do folclore japonês - Parte II
Kitsune e Tanuki
Na primeira parte deste assunto, foram apresentados o gato e o cachorro. Conheça, agora, os animais mais populares da Cultura Japonesa.
Kitsune

Kitsune: esperteza e astúcia para planos bem-sucedidos

A raposa, kitsune, é conhecida, desde os primórdios, por seus extraordinários poderes sobrenaturais. Extremamente inteligente e astuta, acredita-se que ela possua a capacidade de mudar de aparência, transformando-se, geralmente, em belas mulheres para ludibriar os homens. Há ainda a crença de que as raposas podem possuir o corpo de seres humanos e apenas monges especiais conseguiriam exorcizá-las.

Na literatura, a referência à raposa pode ser encontrada já no Nihonshoki (Crônicas do Japão), primeira crônica histórica oficial, compilada em 720. Narrativas de raposas que se transformam em mulheres para ludibriar os homens, muitas vezes tornando-se suas esposas* podem ser vistas em obras como Nihon Ryôki (Relatos Milagrosos do Japão), do século IX, ou Konjaku Monogatarishû (Coletânea de Narrativas de Hoje e de Outrora) do século XII.

Embora a imagem difundida da raposa seja a de um animal malévolo, no templo de Fushimi Inari, em Quioto, a raposa é reverenciada como a divindade guardiã e emissária do deus do arroz do xintoísmo, Inari. Portanto, nos arredores do templo há várias estátuas em reverência ao animal.

Na língua japonesa, podem ser encontradas algumas expressões que fazem referência às crenças em torno da raposa, como: kitsunebi (“fogo-fátuo”) e o kitsunetsuki (“o estar possuído pela raposa”). Ainda na culinária japonesa, há um prato chamado kitsune udon , feito de macarrão tipo udon com pedaços de abura-age (tofu frito), que se acredita ser o prato preferido das raposas.

Tanuki

Tanuki: aspecto gorducho e, em geral, imagem de animal brincalhão

O texugo japonês, tanuki, é, juntamente com a raposa, o animal mais presente nas lendas do imaginário japonês e é, normalmente, retratado com barriga e testículos protuberantes e segurando uma garrafa de saquê em uma das mãos. Nas obras mais antigas, a identificação do tanuki ainda é incerta, podendo referir-se a animais como itachi (“doninha”), ten (“marta”), musasabi (“esquilo voador”) ou o próprio tanuki. Uma definição mais precisa do termo tanuki vai ocorrer a partir da Era Edo (1603–1868), quando acaba por identificar-se com o texugo japonês. Por sua aparência gorducha, o tanuki possui a imagem, diferentemente da raposa, de um animal brincalhão, cujas ações poderiam ser consideradas divertidas, ao invés de cruéis.

A principal crença em torno do tanuki é a sua capacidade de mudar de forma, transformando-se, na maior parte dos casos, em homens. Contudo, o tanuki, geralmente, não obtém tanto sucesso na execução de seus planos, como ocorre com a raposa. Como exemplo, acredita-se que, por gostar tanto de saquê, ao sentir seu cheiro, o tanuki esquece-se de seu disfarce – quando nessa condição – e levanta o rabo, revelando sua identidade.

Uma das histórias mais conhecidas sobre o tanuki é Bunbuku Chagama (“Chaleira que espalha felicidade”), na qual um tanuki liberto de uma armadilha retribui a gentileza a seu salvador. A história popular, Kachi Kachi Yama (“A montanha kachikachi”), constitui um dos raros exemplos em que se enfatiza o lado cruel do tanuki, que serve a um homem uma sopa feita com o corpo da esposa deste. Este aspecto cruel estaria relacionado com o significado primordial do ideograma , que, na China, indica o nome genérico de felinos selvagens.

O tanuki também aparece em muitas expressões da língua japonesa, como tanuki oyaji (“velho astuto”), tanuki neiri (“sono fingido”), por conta do costume desses animais de fingir-se de morto ou adormecido quando surpreendido.

*Narrativas classificadas nos estudos folclóricos como Kitsune Nyôbô, a esposa-raposa.

Colaboradores: Aline Majuri Wanderley e Pedro Ferreira Perrenoud Marques
Revisão:
Profa. Dra. Junko Ota
Crédito

Bolsistas de Toyama 2005/2006, do curso de Língua e Literatura Japonesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Coordenação: Prof. Dr. Koichi Mori. Assessoria técnica: Patrícia Izumi, Centro de Estudos Japoneses da USP. Tel.: (11) 3091-2426 (secretaria)/3091-2423 (biblioteca). Site: CEJAP
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