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Caderno Cultura-Tradicional

Arte japonesa: Haiga

Haiga, literalmente, “pintura-haiku”, foi desenvolvido no Japão por volta do séc. XVI. Reunindo poesia, pintura e caligrafia, essa é uma arte japonesa peculiar. Não apresenta ideais românticos, tampouco imagens refinadas e, aí, difere-se das pinturas japonesas anteriores ao seu surgimento – tal qual o haiku, com relação à poesia. Derivado da arte suiboku-ga da Era Muromachi, não deve também ser confundido com o sumiê, mesmo com a grande semelhança. Preocupa-se com o aqui e o agora, sendo uma forma de expressão que provém, sobretudo, da observação atenta do cotidiano – retrata a natureza, o próprio poeta ou um detalhe geralmente despercebido. Composto por traços simples, rápidos e, muitas vezes, inacabados, o haiga não oferece imagens prontas ao seu público; sugere antes contornos que serão completados pela imaginação do observador, tratando-se, então, não de um produto concluído pelo artista, mas de algo que ganha vida a partir da sensibilidade do espectador.

Embora não haja evidências claras de quando tenha surgido o primeiro haiga, sabe-se que sua origem está vinculada ao próprio estabelecimento do haiku, no Japão, como uma tradição distinta de poesia (por volta do séc. XVI). Porém, foi somente após a unificação de Tokugawa (1600 d.C.) que o haiga e o haiku puderam se desenvolver com mais intensidade. Como as políticas implementadas pelo governo, a partir de então, ampliaram o alcance da educação e da cultura no Japão, mais pessoas puderam ter acesso a essas artes, já que ambas são feitas com o mesmo material que o utilizado na escrita, isto é, pincel (fude), tinta (sumi) e papel (washi) – que não se tratam, no haiga, de meios isolados, mas, sim, de um amálgama: a mesma tinta que escreve pinta e, pintando, registra a escrita do poeta.

A consolidação do haiga e do haiku como formas de expressão artísticas importantes no cenário japonês, entretanto, só se deu com a figura de Matsuo Bashô (1644-1694). Conhecido até hoje como o maior mestre de haiku que existiu no Japão, suas pinturas, modestas, mas essenciais, foram responsáveis pela definição do tom que seria buscado na composição do haiga.

Ainda no séc. XVII, outro fator importante na trajetória do haiga foi a influência recebida do zen-budismo. O apoio que a família Tokugawa deu ao neo-confucionismo e ao pensamento de origem chinesa, à época, acabou por permitir um contato expressivo de grandes mestres zen (como Hakuin Ekaku) com diferentes camadas da população e, então, o haiga pôde absorver parte de sua essência. Deve-se observar, contudo, que o haiga difere de uma categoria semelhante, o zenga, uma vez que este consiste em pinturas mais presas aos ensinamentos diretos do zen-budismo, nas quais, normalmente, não há poemas.

Nos séculos seguintes, o haiga manteve o foco no cotidiano, porém, o caráter de arte diletante, não profissionalizada e imediata foi, muitas vezes, perdido. No séc. XVIII, destacam-se em sua trajetória a retomada do trabalho de Bashô por Yosa Buson e a criação do estilo naturalista (Maruyama-Shijô) por Matsumura Goshun e, nos séculos XIX e XX, tem destaque a fundação por Kawabata Gyokushô e Hayashi Butô do estilo que, recuperando a proposta de Goshun, ficou conhecido como nihonga.


Colaboradores: Rodrigo Moura Lima de Aragão e Camila Rodrigues
Revisão: Profa. Dra. Madalena Hashimoto Cordaro
Fonte das imagens: ADDIS, Stephen. Haiga – Takebe Sôcho and the Haiku-Painting Tradition. Richmond: Marsh Arts Gallery, 1995. 135 p.
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