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Como sabemos,
a língua vai muito além das palavras. No nosso dia-a-dia,
utilizamos junto com elas uma série de formas de expressões
corporais, como gestos, olhares e sorrisos. Segundo pesquisadores, a comunicação
depende 35% de palavras e 65% de expressões não verbais. Portanto,
para cada língua existem diversos gestos que a completam, ou seja,
se a língua é diferente, os gestos também o são.
Um caso bastante
representativo e muito familiar é o choque cultural que há
entre os gestos brasileiros e os gestos japoneses, pois, se por um lado
um é visto como exagerado, o outro é sutil e sugestivo.
Tais diferenças
podem causar tanto um incômodo como situações muito
engraçadas. Por exemplo, quando a ponta do polegar é unida
à ponta do dedo indicador, formando um círculo, isto simboliza
dinheiro ou indica OK no Japão. Quando significa dinheiro, o gesto
é, em geral, feito na altura do peito, com a palma da mão
virada para o falante; e quando significa OK, ele é feito na altura
da cabeça, com a palma da mão virada para o interlocutor.
O problema, neste caso, é que no Brasil e em outros países
esse gesto é obsceno, pois simboliza o ânus e
expressa um profundo desprezo para com o interlocutor, podendo ser também
acompanhado dos dizeres: Aqui ó. Outro gesto que também
poderia causar uma interpretação equivocada é aquele
no qual os dois dedos indicadores são erguidos na altura dos olhos.
No Japão, os dedos representam os chifres de um oni (demônio,
ogro), mas no Brasil indicam corno, cornudo, ou
seja, um marido traído.
Existem também
gestos que não criam situações adversas como os dos
exemplos citados, apenas diferem de país para país. Para
referir-se a si próprio, por exemplo, o japonês expressa
o watashi (eu), colocando o dedo indicador na ponta do nariz, enquanto
no Brasil costuma-se colocar a mão na altura do peito.
Outro gesto
bastante ilustrativo do japonês que diverge do brasileiro é
a forma de cumprimentar uma pessoa. Enquanto o japonês se curva
para o interlocutor, o brasileiro dá o aperto de mão, quase
todas as vezes que se encontra com os amigos e, às vezes, até
com os familiares.
A
risada alta e a contida
Além
dos gestos que utilizamos para expressar uma informação
ao interlocutor, como o OK japonês ou o aperto de mão brasileiro,
existem gestos que são reações ao meio externo, ou
seja, que não tiveram uma intenção objetiva, são
espontâneos. Um exemplo interessante é a risada. Se compararmos
a risada de uma japonesa com a de uma brasileira, notaremos, de uma maneira
geral, que a brasileira solta uma risada alta e expansiva, enquanto a
japonesa é mais contida, leva a mão à boca e ri mais
baixo; mas isso não significa que a sua risada seja menos sincera
do que a da brasileira. Elas apenas se expressam de maneiras diferentes,
de acordo com seus próprios valores socioculturais.
Em alguns casos,
por mais sutis que sejam as diferenças, existe a possibilidade
de ocorrerem pequenos enganos. Assim, ao mesmo tempo em que a funcionalidade
do gesto dentro do diálogo é perdida, percebemos o quão
importante ele é. Se os gestos dos brasileiros e dos japoneses
fossem iguais, haveria mais eficácia na transmissão dos
verdadeiros sentimentos e intenções, o que propiciaria uma
frustração menor ao emissor e provocaria menos choques ao
receptor, havendo uma comunicação mais construtiva. No entanto,
neste processo perderíamos uma série de valores culturais
expressos por estes gestos que refletem a sociedade à qual o emissor
encontra-se inserido, e a riqueza e o intercâmbio cultural de um
diálogo entre duas pessoas de sociedades diversas, como a do brasileiro
e a do japonês, seriam perdidos.
Colaboradoras desta edição: Julia Toffoli e Yumi Matsue
Revisão: professora dra. Luiza Nana Yoshida
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