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A língua
de uma sociedade reflete seu modo de ver o mundo, podendo conter aspectos
que indicam quais os valores e costumes que estão por trás
dos tipos de interação existentes.
A língua
japonesa é um exemplo claro disso, pois nas várias relações
sociais do cotidiano japonês, a forma como a língua é
usada pode refletir os contornos de uma dada interação.
Com base apenas no tipo de linguagem empregada é possível
distinguir, por exemplo, qual o sexo dos participantes da conversa, sua
faixa etária, seu grau de intimidade, ocupação, status
social ou até mesmo qual a sua posição.
Essa característica
peculiar da língua é produto de uma sociedade fortemente
marcada pelas noções de agrupamento e hierarquização.
Na sociedade japonesa tende a distinguir constantemente as pessoas que
fazem e as que não fazem parte de um determinado círculo,
ou em posição superior ou inferior.
A concepção
tipicamente japonesa que classifica as pessoas como os de dentro
e os de fora (uchi-soto) e, dependendo de qual dessas categorias
seu interlocutor esteja, determina como o falante usará uma ou
outra forma de tratamento. É muito forte o conceito de veteranos
e novatos (senpai/kôhai), sendo o veterano aquele que
ingressou primeiro em um determinado círculo ou meio, o novato
é tido como seu inferior, e essa relação pode ser
influente ao ponto de um funcionário ser promovido com base apenas
em seu tempo de serviço e não necessariamente por seu mérito
ou por sua produtividade.
Para entender
a noção de uchi-soto, cabe retomar essa idéia de
casa, pois esse tipo de organização social tem
base nas relações familiares tradicionais japonesas ou,
de forma mais ampla, na estruturação dos antigos clãs
(ie), segundo a qual pessoas (não necessariamente parentes) uniam-se
em função de um bem comum, visando prosperar juntas e perpetuar
os valores e costumes que foram estabelecidos em seu meio.
Ao interagir
tanto com membros como com não-membros de seu círculo, o
falante deve estar atento às relações de superioridade
e inferioridade a fim de se posicionar e adequar sua fala à sua
respectiva posição. Para tanto, a língua japonesa
oferece um número considerável de expressões de tratamento,
por meio das quais ele poderá expressar seu respeito, seja pela
elevação de seu ouvinte, seja por sua própria
diminuição, sendo que em ambos os casos ele
poderá dispor de uma gama de verbos, substantivos, adjetivos, afixos
etc., nos quais a idéia ou de respeito (sonkei) ou de modéstia
(kenjô) já estará embutida.
Nisso se resume
o uso de keigo (expressões de respeito) que, segundo Fumio Inoue,
professor do Departamento de Lingüística da Universidade de
Tóquio de Estudos Estrangeiros, tem sua origem com a nobreza japonesa,
por volta de um milênio atrás. A princípio, esse uso
era estritamente baseado na hierarquia social, ou seja, apenas discriminava
a posição em que a pessoa se encontrava dentro do ranking
da corte. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, juntamente
com a democratização da sociedade japonesa, as expressões
de respeito passaram a ser usadas a fim de diferenciar o grau de intimidade
entre os falantes.
Nos dias de
hoje, porém, algumas mudanças têm ocorrido na sociedade
nipônica nesse sentido. Muitas empresas, tradicionalmente divididas
por idade, abandonaram o uso de títulos, na esperança de
criar uma sociedade mais aberta e competitiva. Além disso, o avanço
das políticas socioeconômicas globalizadas tem forçado
essas empresas a favorecer a performance em detrimento do tempo
de casa, corrompendo a ordem tradicional.
O uso das expressões
de respeito tem caído em desuso principalmente entre os jovens
japoneses. No entanto, há ainda os que acreditam que seu ensino
e uso são importantes. Afinal, não conseguir usar as expressões
de maneira adequada pode acarretar constrangimentos tanto ao falante quanto
ao ouvinte e, danificar uma relação, devido a possíveis
erros de interpretação.
Para muitos
adultos e idosos japoneses, o declínio das expressões de
respeito colabora para a perda da profunda beleza da língua
e a vulgarização da sociedade. Sabe-se que todas as línguas
sofrem mudanças ao longo do tempo, e, com o japonês, isso
tem dificultado a atribuição de valor ou importância
ao uso de keigo. Outros japoneses afirmam que, no cotidiano, o uso ou
não de keigo não é fundamental. Basta que as pessoas
conversem e demonstrem algum tipo de respeito, em maior ou menor grau,
conforme a situação.
Colaboradoras:
Alessandra Batista e Talita de Almeida Leme.
Revisão: Profa. Dra. Wataru Kikuchi
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