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Caderno Cultura-Tradicional

As expressões de respeito da língua japonesa

Tradução: Chefe, o senhor já almoçou? (1)
Ah, ainda não comi nada. Vamos juntos? (2)
Sim, vamos. (3)


Tradução: Eu me chamo Makoto Ishikawa. Muito prazer em conhecê-los. (1)
Hoje é dia de apresentações. (2)

A língua de uma sociedade reflete seu modo de ver o mundo, podendo conter aspectos que indicam quais os valores e costumes que estão por trás dos tipos de interação existentes.

A língua japonesa é um exemplo claro disso, pois nas várias relações sociais do cotidiano japonês, a forma como a língua é usada pode refletir os contornos de uma dada interação. Com base apenas no tipo de linguagem empregada é possível distinguir, por exemplo, qual o sexo dos participantes da conversa, sua faixa etária, seu grau de intimidade, ocupação, status social ou até mesmo qual a sua posição.

Essa característica peculiar da língua é produto de uma sociedade fortemente marcada pelas noções de agrupamento e hierarquização. Na sociedade japonesa tende a distinguir constantemente as pessoas que fazem e as que não fazem parte de um determinado círculo, ou em posição superior ou inferior.

A concepção tipicamente japonesa que classifica as pessoas como “os de dentro” e “os de fora” (uchi-soto) e, dependendo de qual dessas categorias seu interlocutor esteja, determina como o falante usará uma ou outra forma de tratamento. É muito forte o conceito de “veteranos” e “novatos” (senpai/kôhai), sendo o veterano aquele que ingressou primeiro em um determinado círculo ou meio, o novato é tido como seu inferior, e essa relação pode ser influente ao ponto de um funcionário ser promovido com base apenas em seu tempo de serviço e não necessariamente por seu mérito ou por sua produtividade.

Para entender a noção de uchi-soto, cabe retomar essa idéia de “casa”, pois esse tipo de organização social tem base nas relações familiares tradicionais japonesas ou, de forma mais ampla, na estruturação dos antigos clãs (ie), segundo a qual pessoas (não necessariamente parentes) uniam-se em função de um bem comum, visando prosperar juntas e perpetuar os valores e costumes que foram estabelecidos em seu meio.

Ao interagir tanto com membros como com não-membros de seu círculo, o falante deve estar atento às relações de superioridade e inferioridade a fim de se posicionar e adequar sua fala à sua respectiva posição. Para tanto, a língua japonesa oferece um número considerável de expressões de tratamento, por meio das quais ele poderá expressar seu respeito, seja pela “elevação” de seu ouvinte, seja por sua própria “diminuição”, sendo que em ambos os casos ele poderá dispor de uma gama de verbos, substantivos, adjetivos, afixos etc., nos quais a idéia ou de respeito (sonkei) ou de modéstia (kenjô) já estará embutida.

Nisso se resume o uso de keigo (expressões de respeito) que, segundo Fumio Inoue, professor do Departamento de Lingüística da Universidade de Tóquio de Estudos Estrangeiros, tem sua origem com a nobreza japonesa, por volta de um milênio atrás. A princípio, esse uso era estritamente baseado na hierarquia social, ou seja, apenas discriminava a posição em que a pessoa se encontrava dentro do ranking da corte. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, juntamente com a democratização da sociedade japonesa, as expressões de respeito passaram a ser usadas a fim de diferenciar o grau de intimidade entre os falantes.

Nos dias de hoje, porém, algumas mudanças têm ocorrido na sociedade nipônica nesse sentido. Muitas empresas, tradicionalmente divididas por idade, abandonaram o uso de títulos, na esperança de criar uma sociedade mais aberta e competitiva. Além disso, o avanço das políticas socioeconômicas globalizadas tem forçado essas empresas a favorecer a performance em detrimento do “tempo de casa”, corrompendo a ordem tradicional.

O uso das expressões de respeito tem caído em desuso principalmente entre os jovens japoneses. No entanto, há ainda os que acreditam que seu ensino e uso são importantes. Afinal, não conseguir usar as expressões de maneira adequada pode acarretar constrangimentos tanto ao falante quanto ao ouvinte e, danificar uma relação, devido a possíveis erros de interpretação.

Para muitos adultos e idosos japoneses, o declínio das expressões de respeito colabora para a perda da “profunda beleza” da língua e a vulgarização da sociedade. Sabe-se que todas as línguas sofrem mudanças ao longo do tempo, e, com o japonês, isso tem dificultado a atribuição de valor ou importância ao uso de keigo. Outros japoneses afirmam que, no cotidiano, o uso ou não de keigo não é fundamental. Basta que as pessoas conversem e demonstrem algum tipo de respeito, em maior ou menor grau, conforme a situação.

Colaboradoras:
Alessandra Batista e Talita de Almeida Leme.
Revisão: Profa. Dra. Wataru Kikuchi

 
Verbos que expressam respeito e modéstia

De todos os fatores que dificultam o uso adequado de keigo, os verbos que expressam respeito (sonkeidoshi) e modéstia (kenjodoshi) são os mais problemáticos, pois o falante precisa saber no mínimo três formas de expressar uma mesma ação, conforme mostra a tabela abaixo:

Principais Sonkeidoshi e Kenjodoshi
Respeito (sonkei)
Neutro
Modéstia (kenjo)
Tradução
nasaru suru itasu fazer
meshiagaru taberu/nomu itadaku comer/beber
irassharu iku/kuru mairu ir/vir
irassharu iru oru ser/estar
goran’ninaru miru haikensuru ver
ossharu iu mosu dizer

 
OS AUTORES
Esta página, publicada quinzenalmente, é produzida, a partir desta edição, pelos bolsistas de Iniciação Científica da província de Toyama 2005 e 2006, do curso de Língua, Literatura e Cultura Japonesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).
Coordenação: Prof. Dr. Koichi Mori. Assessoria Técnica: Patrícia Tamiko Izumi. Centro de Estudos Japoneses da USP - Av. Prof. Lineu Prestes, 159. Cidade Universitária - São Paulo-SP. CEP: 05508-900. Telefones: (11) 3091-2426 (secretaria) e (11) 3091-2423 (biblioteca).
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