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Caderno Cultura-Tradicional

A idéia de “métodos não limpos”
Japoneses questionam aqueles que utilizam meios sujos parar obter sucesso, como um recente caso da corretora Mizuho

Episódio ocorrido em meados do século 16 mostra estratégia muito elogiada

Tanto em negócios como no relacionamento social, os japoneses gostam de utilizar a expressão: “Usar de meios sujos, não ser limpo”. Dificilmente avaliam de forma positiva, afirmando sempre que não pensariam em lucrar utilizando-se de métodos de tal forma sujos, ou questionam como as pessoas buscam o sucesso não se importando em lançar mão de meios sujos.

Vejamos como isso ocorre na atualidade. Em dezembro do ano passado, houve um erro na negociação de ações pela Mizuho, uma empresa corretora de títulos e valores. O que de fato ocorreu foi uma troca entre o valor e a quantidade das ações de uma empresa, seguida de sua comercialização via rede, resultando num valor absurdo. Ao descobrir o erro, deveria a Corretora Mizuho torná-lo público, comunicando o ocorrido à bolsa de valores de Tóquio, que, por sua vez, deveria paralisar o sistema. De fato, posteriormente, a comercialização destes títulos ficou paralisada por três dias.

Dizem que este erro ocasionou um lucro de ¥ 2 trilhões a uma pessoa de Hokkaido. Supõe-se que não só pessoas físicas, mas também jurídicas, como o grupo UBS, dos Estados Unidos, que teria contabilizado um lucro de ¥ 12 trilhões; Morgan Stanley, ¥ 1,4 trilhões; e a corretora Nomura, ¥ 300 milhões.

De acordo com Ken´ichi Omae, um expert em economia e política internacional: “este erro acarretou ao Japão uma perda de ¥ 40 trilhões, o que pode ser considerado um big bang financeiro, comparável a um prejuízo que teria, se tivesse sido atingido por cinco ou seis mísseis”. Aproveitando o ensejo, dizem que o padrão mundial da velocidade de transmissão em bolsas de valores é de 0,1 segundo, e que o sistema eletrônico da bolsa de valores de Tóquio é de 5 segundos, sendo desejável que se faça uma melhoria no sistema.

Ao comentar as atitudes tomadas pela corretora de valores, que tinha conhecimento destes “acidentes”, as palavras utilizadas pelo ministro das Finanças foram: “os métodos foram sujos, não foram limpos”.

Lembramos de um episódio que envolve um general japonês, ocorrido por volta de meados do século XVI. A região de Kai no Kuni (atual província de Yamanashi), por não ter acesso ao mar, sempre dependeu de outras provícias para a obtenção do sal. O adversário, tendo conhecimento disso, adotou a estratégia de proibir a passagem dos comerciantes que se dirigiam para a referida região. Com isso, houve carência de sal, o que provocou uma situação de pânico na população. A situação estendeu-se por um ano e cinco meses. Entretanto, Uesugi Kenshin de Echigo (província de Niigata) não permitiu que esta situação de extrema dificuldade perdurasse. Enviou a Takeda Shingen, seu adversário, o sal extraído no Mar do Japão. Esta atitude foi muito elogiada.

Bem, sal e ações não são objetos de comparação, mas tratando-se de comercialização regida por regras do mercado de valores, parece que não se pode condenar tais atitudes. Saiu ganhando quem tinha em mãos esta informação. Talvez possamos tratar o caso como um jogo do dinheiro.

Outro caso bastante noticiado foi o de M&A (merger & acquisition) utilizado na briga pelas ações da Nippon Hoso entre as empresas Fuji TV e Livedoor. Trata-se de fusão e compra entre empresas, muito comuns no Ocidente, mas que no Japão ainda traz muito forte a imagem de “seqüestro”. Não significa só compra ou fusão de empresas, mas dizem que é uma forma de investimento ou de estratégia empresarial. De acordo com as pesquisas realizadas pela corretora Nomura, o número de M&A em que empresas japonesas estiveram envolvidas foi de 618 casos em 1994, aumentando para 2.133 em 2004, o que representa um crescimento de mais de 300%. É questionável a sobrevivência de “métodos limpos” neste ambiente de acirrada competição internacional.

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